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Comemorado hoje, o halloween tem origem em tradições europeias do século 2, ligadas à celebração das colheitas, e veio se transformando ao longo do tempo

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Para onde vão os mortos? Os espíritos podem voltar e perambular pela Terra? Há seres sobrenaturais dos quais devemos nos proteger? Não é de hoje que o homem lida com essas perguntas. Quando o assunto é o desenvolvimento de civilizações, não há como separar o nascimento das sociedades complexas das histórias de deuses, espíritos e entidades que ainda enfeitiçam a imaginação popular. 

Povos antigos, como os celtas, que começaram a habitar o oeste da Europa alguns séculos antes de Cristo, acreditavam que a Terra escondia mundos perdidos, e passagens para universos ocultos podiam se abrir. Viu alguma relação com as crenças dessas antigas tribos e a festa do Dia das Bruxas, que há alguns anos passou a ser comemorada também no Brasil? Não é por acaso. Para especialistas, a origem do Halloween, como a data de 31 de outubro é conhecida, tem origem nos costumes desse povo do passado.Nelson Bondioli, historiador especializado em estudos celtas e romanos, diz que a primeira referência histórica desses ritos data do século 2. “Está em um calendário depositado na Gália, região que hoje se refere, basicamente, à França. Ele foi encontrado em 1867, na cidade de Coligny, próxima a Lyon. Por isso, é conhecido como Calendário de Coligny”, conta o especialista.

Nos fragmentos da tábua de bronze, estão descritos cinco períodos de 12 meses. Ali, vê-se que o primeiro mês do ano celta era o Samon, ou Samonios, uma palavra que os estudiosos acreditam estar ligada ao verão. “Na segunda metade desse mês, há a inscrição Trinux Samon, algo como três noites de Samon, que provavelmente marcava um festival de três dias. Não sabemos a qual mês seria equivalente no nosso calendário, mas acreditamos que deva ser entre julho e novembro”, diz Bondioli.

Irlanda Por volta do século 8, na Irlanda, a história do Halloween ganha outro capítulo, escrito por monges católicos que passaram a reunir histórias da cultura oral europeia. Entre elas, estava uma festividade comemorada no início de novembro, a Samhain. Há uma relação entre Samon e Samhain? “Talvez”, diz Bondioli. “Mas temos que entender que não é uma relação direta. Há uma distância espacial e temporal. Além disso, o Samhain começa a ser escrito por volta do século 8, mas os manuscritos que nós temos acesso são do século 12. Então, veja que complicação”, observa o historiador.

Nos manuscritos, pesquisadores encontraram conjuntos de textos, chamados ciclos, que retratam histórias relacionadas entre si. A citação ao 1º de Samhain é recorrente, mostrando que a data era vista como um momento propício para acontecimentos sobrenaturais. Naquele dia, o deus Dagda encontrava e mantinha relações sexuais com a deusa Morrigan, ligada à morte e à guerra. Era também quando os sídhes (montanhas e colinas com reinos paralelos e criaturas mágicas) se tornam mais acessíveis.

“Havia uma ligação forte com energias espirituais, mas não de reverência aos mortos. O Samhain também mantinha uma ligação com a luz e a escuridão, mas a ideia principal era de limiaridade, o entre momentos, o que não é aqui nem ali. A noite anterior ao Samhain, que seria o 31 de outubro, não era o ano velho nem o ano novo. Não está ligado à luz, mas também não há escuridão”, explica Bondioli, completando que os celtas acreditavam que, nesse momento, as barreiras com o mundo espiritual se enfraqueciam. “Portanto, era possível transitar entre os mundos, o nosso e o sídhe.”

RITUAIS Segundo o artigo Halloween: an evolving american consumption ritual, do pesquisador Russell Belk, professor de marketing da Schulich School of Business, no Canadá, a celebração do Samhain consistia em uma sequência de rituais, inclusive sacrifícios humanos, conduzidos por druidas, sacerdotes da Idade do Ferro na Bretanha e na França. No estudo, publicado na revista especializada Advances in Consumer Research, Belk conta que para os antigos europeus, naquela noite, os espíritos dos mortos voltavam às casas em que haviam vivido. Além deles, bruxas e duendes mal-intencionados vagavam pela Terra.

Ele cita que alguns dos pontos marcantes do Halloween moderno, como a tradição de se fantasiar, aparecem nesse momento: aldeões vestiam peles de bichos abatidos para invocar espíritos de animais sagrados. Por ser uma festividade relacionada à colheita, havia forte influência da comida. Banquetes eram preparados para os fantasmas dos ancestrais, que, após a festa, eram conduzidos para fora do vilarejo pelos moradores fantasiados. É possível, também, que mendigos passassem nas casas pedindo restos da produção.

Em 1950, vestígios encontrados pelo antropólogo Ralph Linton indicaram que um dos costumes para a festividade incluía uma procissão de mascarados que percorria as cidadelas pedindo contribuições para uma entidade druídica chamada Muck Olla. 

CATOLICISMO Para chegar aos dias de hoje, essas tradições contariam um pouco mais tarde com a ajuda da Igreja Católica. A Santa Sé, que se tornara dominante em todo o continente, percebeu que era mais eficaz adaptar e assumir feriados pagãos do que se opor a eles. Assim, no ano de 835, o papa Gregório IV designou o 1º de novembro, data de comemoração do Samhain, como o All Hallows, ou Dia de Todos os Santos. Como a festa de origem celta, a data católica reverenciava os mortos, mas apenas aqueles considerados santos e mártires.

A Igreja também se apropriou da tradição de se fantasiar ao encorajar os fiéis a se vestirem como seus santos preferidos. Apesar do esforço, a tentativa de anular o Samhain não foi bem-sucedido, o que resultou na criação, em 1006, pelo papa João XIX, do Dia de Finados, comemorado em 2 de novembro. A data começava a ser comemorada na noite de 31 de outubro, chamada de Hallows Eve (Noite dos Santos), que se tornaria depois Halloween.

A festa demoraria alguns séculos para cair no gosto norte-americano. Isso ocorreu em 1840, com a chegada dos imigrantes irlandeses aos Estados Unidos. Com o tempo, algumas tradições desapareceram completamente e outras, como a tradição de crianças modificarem abóboras, permaneceram até hoje. 

Uma das questões mais interessantes é como uma festividade tão antiga conseguiu se manter forte e tradicional ao longo de milênios. “Ela se mantém assim porque a sociedade, a tradição e a comemoração estão sendo constantemente reformuladas. O Halloween, na forma comercial que vemos hoje, é fruto do capitalismo do século 20. Qual criança ou adulto associaria suas balas e pirulitos com uma celebração de passagem de ano?”, indaga Bondioli. “Talvez, essa seja a verdadeira força do Halloween: sua capacidade de ser reinventado e ser adaptado tão bem à sociedade que o comemora”, acredita o historiador. Como será a festa daqui dois séculos? Essa é uma pergunta ainda sem resposta. “Considerada a perspectiva histórica, ele tem tudo para ser muito diferente do que vemos atualmente.”

 

Claro e escuro

Gravado em bronze, o Calendário de Coligny é a única peça que retrata o calendário celta antigo. Ele era lunissolar, isto é, com os meses contados de acordo com as fases da Lua, que possui um ciclo de 28 dias. Entretanto, também se adequava, à sua maneira, com o movimento do Sol. “A importância dessa característica é que, considerando as fases da Lua, os meses eram separados em duas metades: uma metade clara (lua crescente a cheia) e outra escura (lua minguante e nova). Da mesma forma, o ano era dividido em uma parte clara (meses de verão) e uma escura ( meses de inverno)”, detalha o historiador Nelson Bondioli.

 

Palavra de especialista

Lídice Meyer, 
antropóloga da Universidade Presbiteriana Mackenzie

Importação cultural

 

Essa é uma festividade que veio importada para o Brasil e que não tem relação com nossa cultura. É uma espécie de intromissão cultural. Existem alguns movimentos tradicionais brasileiros que tentam substituir a festividade que, hoje, tem uma face mais mercadológica que folclórica. Os movimentos brasileiros não tentam substituir, ma sim abrasileirar a festa. Só que isso não tem fundamento. E existe uma resistência grande dos evangélicos à essa comemoração. Nos Estados Unidos, isso não é evidente porque a celebração é tão folclórica que a relação com o maligno se apaga. As crianças brincam com diversões proporcionadas até mesmo pelas igrejas.

FONTE: Estado de Minas.


‘Cidade de beldades’ desmente boato internacional de ‘campanha por homens’

Reportagens na imprensa estrangeira descreveram Noiva do Cordeiro, MG,

como paraíso de “garotas de extrema beleza em busca maridos”.

 

O pequeno distrito de Noiva do Cordeiro, a 100 km de Belo Horizonte, andou causando frisson na imprensa estrangeira – mas as reportagens não falavam sobre a criação de gado ou a produção artesanal de roupas pela cooperativa local.

Em pelo menos três jornais britânicos, sites de notícias em inglês, além de veículos turcos, tailandeses, norte-americanos, italianos e indianos, o vilarejo foi descrito como terra natal de “600 mulheres exóticas e solteiras”, todas entre “20 e 25 anos”, que teriam criado uma campanha para atrair homens e reverter a escassez masculina na região.

Manchetes como “Habitat de Beldades em Busca de Homens” e “Lugar Exclusivamente Ocupado por Garotas de Extrema Beleza Quer Atrair Maridos” causaram entre alguns leitores estrangeiros – a ponto de chegar ao topo da lista de mais lidas do jornal britânico The Telegraph.

Mail Online: 'Cidade no Brasil composta inteiramente por mulheres fez apelo por solteiros'.  (Foto: Mail Online / Via BBC)
Mail Online: ‘Cidade no Brasil composta
inteiramente por mulheres fez apelo por solteiros’.
Metro: 'Alerta a todos os solteiros: esta cidade é inteiramente composta por mulheres extremamente atrativas' - e elas estão em busca de homens. (Foto: Metro / Via BBC)
Metro: ‘Alerta a todos os solteiros: esta cidade é
inteiramente composta por mulheres extremamente
atrativas’ – e elas estão em busca de homens.
Mirror: 'Cidade cuja população é inteiramente de mulheres bonitas e jovens faz apelo por homens solteiros'. (Foto: Mirror / Via BBC)
Mirror: ‘Cidade cuja população é inteiramente de
mulheres bonitas e jovens faz apelo por homens
solteiros’.

Não seria difícil adivinhar que a história não fosse bem essa.A população de Noiva do Cordeiro, segundo os moradores, não é composta por “600 solteiras”, mas por aproximadamente 300 pessoas, homens e mulheres, em proporção similar.

Elas não têm “entre 20 e 25 anos” – são crianças, adolescentes, mães e idosas.

Principalmente: não há campanha alguma em busca de maridos.

Contexto

Quem desmente é Rosalee Fernandes, de 49 anos, moradora do local desde a infância. Ela é uma das “entrevistadas” que aparecem em jornais como os britânicos Daily Mail e o Metro, e em websites como o Huffington Post.

“Com certeza não tem campanha nenhuma. Não dei entrevista. Colocar a gente nessa situação é um absurdo.”

Noiva do Cordeiro fica numa área rural na região metropolitana de Belo Horizonte. “O que acontece é que os nossos maridos trabalham em BH durante a semana. Mas ninguém aqui está desesperada, não, senhor, somos trabalhadoras”, diz.

Na capital, os homens costumam trabalhar como operários em fábricas.

Pelo Facebook, mulheres da comunidade divulgam fotos de eventos como coral e festas de 'halloween' (Foto: Facebook Noiva do Cordeiro / Via BBC)Pelo Facebook, mulheres da comunidade divulgam fotos de eventos como coral e festas de ‘halloween’

A BBC Brasil conversou com outras duas moradoras da cidade para matar a charada. As frases incluídas nas reportagens parecem ter sido deliberadamente copiadas, fora de contexto, de uma matéria da revista Marie Claire publicada em 2009.

No texto, que mostra como a cooperativa local criada pelas mulheres se tornou exemplo de organização entre as moradoras, uma das entrevistadas diz que há poucos homens solteiros e que boa parte deles são parentes.

O que não significa que haja uma “campanha em busca de maridos”.

“A internet aqui é do governo e caiu há uns dias. A gente está sem acesso a nada e não faz ideia do que está saindo sobre nós”, disse Rosalee.

As fotos das falsas reportagens, que mostram as mulheres em poses e trajes provocantes, foram tiradas numa festa à fantasia e publicadas na página da associação local no Facebook.

Respeito

O vilarejo é composto por pessoas de origem humilde, na maioria sem ensino médio completo, que se organizam numa cooperativa onde tudo é decidido coletivamente.

Diariamente, elas trabalham na lavoura ou na produção de peças de artesanato, como tapetes, colchas e lingeries, e produtos rurais, derivados do leite e da pecuária.

Na ausência de homens nos dias úteis, a associação local foi o caminho encontrado pelas mulheres para se ajudar mutuamente e enfrentar o preconceito dos vilarejos do entorno.

É que, no passado, moradores das cidades vizinhas chegaram a taxar as moradoras como prostitutas – pelo simples fato de estarem desacompanhadas.

Juntas, elas dizem ter conseguido complementar a renda familiar por meio do trabalho coletivo, além de se ocupar nos períodos de ausência dos maridos.

Principalmente, dizem, acham que conseguiram impor respeito.

“Por favor, vocês precisam nos ajudar a desmentir esse boato, moço”, pede Rosalee. “Isso aqui é terra de gente digna.”

 

O distrito mineiro de NOIVA DO CORDEIRO, comunidade de Belo Vale, a 100 quilômetros de Belo Horizonte, na Região Central de Minas, virou manchete em jornais internacionais esta semana. O frisson da imprensa estrangeira é sobre a solteirice das moradoras da cidade. A mídia noticiou que a localidade tem população somente de mulheres, bonitas e loucas para arrumar namorados.
Noiva
A repercussão da tal “campanha” em busca de homens deixou as jovens revoltadas e ontem um desmentido do boato internacional foi publicado pela agência de notícias inglesa BBC. As matérias sobre a procura por homens tinham as seguintes manchetes: “Cidade no Brasil composta inteiramente por mulheres faz apelo por solteiros”; “Alerta a todos os solteiros: esta cidade é inteiramente composta por mulheres extremamente atrativas – e elas estão em busca de homens”; “Cidade cuja população é inteiramente de mulheres bonitas e jovens faz apelo por homens solteiros”.

Tudo indica, segundo a agência de notícias, que as reportagens foram traduzidas e publicadas fora do contexto, o que causou a impressão do desespero na solteirice. Os textos teriam sido retirados de uma entrevista, de 2009, concedida por moradoras a uma revista feminina. As fotos das reportagens, que mostram as mulheres em poses e trajes provocantes, foram retiradas do Facebook da comunidade. Nas imagens feitas em uma festa à fantasia, as mulheres estão caracterizadas. 

Sites britânicos, turcos, tailandeses, norte-americanos, italianos e indianos retorceram a história e colocaram o vilarejo como terra natal de “600 mulheres exóticas e solteiras”, todas entre “20 e 25 anos”. Conforme a BBC, os textos atraíram muitos leitores estrangeiros – a ponto de chegar ao topo da lista de mais lidas do jornal britânico The Telegraph.

Com a divulgação na internte, os boatos sobre as mulheres de Noiva do Cordeiro repercutiram em quase todo o planeta, exceto na comunidade feminina, que está sem internet. “Nossa internet é do governo e está fora do ar há meses. Ficamos sabendo das informações pelos jornalistas, que não param de ligar”, diz Rosalee Fernandes, vereadora de Noiva do Cordeiro. Ela conta que, ontem, diante da enorme repercussão do caso, a comunidade recebeu a visita de um repórter inglês do The Telegraph, que nunca tinha vindo ao Brasil. 

VERGONHA Segundo Rosalee Fernandes, o texto que está correndo o mundo não passa de um “grande mal-entendido”. “É complicado falar de algo que não vimos com nossos próprios olhos, mas estou contando com o apoio da mídia nacional para desfazer esse grande mal-entendido. Primeiro jornal a contar a nossa história, o Estado de Minas é nosso maior parceiro no combate ao preconceito contra a nossa comunidade formada por mulheres”, afirma a vereadora, que se sentiu também envergonhada perante o jornalista estrangeiro, obrigado a se deslocar para o município vizinho para transmitir a reportagem em tempo real direto para a Inglaterra. “O homem vai levar uma imagem péssima do Brasil. O governo desativou a internet da Noiva, deixando mais de 50 crianças e jovens da era digital desplugados”.

FONTE: G1 e Estado de Minas.



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