Antequam noveris, a laudando et vituperando abstine. Tutum silentium praemium.

Arquivo da tag: hugo

Savassi para sempre

Em meio a prédios e muito comércio, famílias que viram a charmosa região se transformar resistem em casarões construídos pelos seus antepassados e nem pensam em deixar o lugar

“Adoro aqui. Quando os corretores chegam, falo que só mudo depois de morrer” – Alda Savassi, aposentada

Alda Savassi nasceu numa casa na Praça Diogo de Vasconcelos, quando ali era o Bairro Funcionários. Filha de Hugo, um dos donos da famosa padaria, viu o sobrenome batizar a região. Aos 92 anos, se orgulha de nunca ter abandonado a Savassi, onde cresceu, casou e criou três filhos. Em volta da casa, na Rua Antônio de Albuquerque, quase tudo mudou. De um lado: uma loja. Do outro: um prédio. Em frente: um bar. Mas os olhos azuis continuam a brilhar. “Adoro aqui. Gosto de ir para o portão ver o movimento. Quando os corretores chegam, falo que só mudo depois de morrer”, diz, com elegância.

Dona Alda faz parte de um grupo de moradores que não sonham em ter casa no campo. Eles querem apenas continuar a viver tranquilamente em suas casas na Savassi, uma das áreas mais charmosas da capital, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte. Nem que para isso seja preciso resistir a muitas pressões. Além de se despedirem dos antigos vizinhos, eles viram arranha-céus e centros comerciais se instalarem ao lado de suas residências e disseram (e continuam a dizer) não a propostas milionárias de construtoras.

É porque há prazeres que não se pagam. “Meus netos vêm aqui, estacionam o carro. Eu dou uma voltinha, adoro esse movimento”, reforça dona Alda, que mora com o filho Cássio, de 60. Embora goste do presente, um doce passado continua nas lembranças. “Aqui era só casa. Tinha o cine Pathé, era uma beleza!”, conta. Foi preciso algumas mudanças para acompanhar os novos tempos. “A casa não tinha grades antes e, hoje, não podemos deixar nada no jardim porque roubam”, conta Cássio.

Falando em jardim, esse é o grande destaque da casa da família Cadar, na Rua Santa Rita Durão. No imóvel de 1927, situado numa área de 1,3 mil metros quadrados, funciona também o consulado da Síria, país do falecido patriarca, cônsul Antônio Cadar. As parreiras e o chafariz são típicos do Oriente Médio, mas quem rouba a cena são as orquídeas, em frente ao portão, e a mangueira no fundo do quintal. As plantas garantem que a casa tenha temperatura amena em meio ao concreto.

Lecy Cadar sente falta dos vizinhos, mas gosta de ter o comércio perto (Ramon Lisboa/EM/D.A Press)
Lecy Cadar sente falta dos vizinhos, mas gosta de ter o comércio perto

“Não temos interesse em vender. Os sete filhos de meus pais nasceram aqui e a casa continua sendo o lugar onde todos se encontram”, conta Lecy Cadar, de 70, que ainda mora na casa. Os vizinhos fazem falta, mas as facilidades chegaram junto com o comércio. “Aqui não precisa de carro para nada. Os corretores de imóveis batiam muito na porta. Agora eles já sabem que não queremos vender”, diz Lecy, que tem apenas uma vizinha daqueles tempos saudosos.

PROPOSTA Na mesma rua, a moradora Leila Mashura, de 64, já negou R$ 7 milhões pela casa onde nasceu e mora até hoje com o marido. “Pegamos amor à casa, aqui eu tenho muita liberdade. E passa gente o dia inteiro, por ser uma localização central. Toda hora meus netos e filhas estão aqui”, diz. O escritório da família funciona no segundo andar da casa e a irmã mora nos fundos do lote.

O pai delas, Wadi Mashura, construiu o imóvel há 95 anos, quando chegou do Líbano. Com o tempo, foi necessário fazer adaptações e, para melhorar a renda, o jardim da frente foi substituído por lojas. Há cinco meses, a mãe de Leila faleceu e os corretores voltaram a aparecer. “Dinheiro nenhum paga a minha tranquilidade e não me incomodo com os prédios”, afirma Leila.

Dono do Restaurante Buona Távola, na Rua Alagoas, Edmundo Lanna assiste silenciosamente às despedidas e conta nos dedos os vizinhos que restaram. “Tínhamos grandes vínculos com os vizinhos, mas estão espremendo a Savassi de prédios e quem ficou não terá escapatória”, professa.
Palavra de especialista
BH descobre sua vocação

JOãO DE PAULA
MESTRE EM ARQUITETURA E URBANISMO
“As cidades se renovam e Belo Horizonte, ainda adolescente, com 116 anos, está em um período de descobrir sua vocação. A Savassi era um bairro de casas de funcionários do governo e, aos poucos, foi se transformando numa região de caráter comercial. O importante é ter normas mais criteriosas do que deve ser preservado e o que não tem interesse de preservação. Nesse processo, a população precisa ser mais ouvida.”

FONTE: Estado de Minas.



%d blogueiros gostam disto: