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Eike é o homem que fala javanês?
Como personagem de Lima Barreto, ele convenceu investidores e presidentes de que teria sucesso. Foi da promessa ao fracasso

Derrocada do império X afetou confiança na bolsa brasileira, num momento em que o Brasil precisa financiar o crescimento econômico. Recuperação levará tempo, para analistas de mercado

O homem que convenceu o país de que falava javanês sem nunca ter pisado na ilha de Java ou ter frequentado nem sequer uma aula do idioma malaio se tornou uma celebridade no conto do escritor Lima Barreto, graças à invenção que permitiria a ele concorrer à almejada oferta de emprego para um professor de javanês, anunciada nos classificados de jornal. Quanto mais difícil parecia aos outros o idioma da Indonésia, mais confiança e admiração a personagem Castelo ganhava dos seus pares. Até onde vai a história, ele se deu bem. Tornou-se professor, viajou para Paris, fez-se cônsul, almoçou com o presidente da República. Cem anos depois, a trajetória do empresário e ex-bilionário Eike Batista faz uma espécie de releitura irônica do conto, publicado pela primeira vez em 1911.

Como Castelo, o mineiro Eike Batista abusou da arte do convencimento. Foi além da personagem e se esmerou na capacidade de alimentar a vaidade humana e a sede de ganhos contínuos e cada vez mais altos dos investidores no mercado financeiro. Vendendo um império construído a partir de ativos pouco palpáveis, especialmente papéis de petróleo, ele se tornou o sétimo homem mais rico do mundo, com fortuna calculada pela revista norte-americana Forbes. Na aproximação com o poder, fez inveja embarcando nos elogios dados a ele pela presidente Dilma Roussef. Antes de ver seus bilhões derreterem, tão rápido como foram acumulados, foi comparado a empreendedores de ativos sólidos, como Antônio Ermírio de Morais (Grupo Votorantim) e o americano Bill Gates, criador da Microsoft.

Depois do tombo que forçou a menina dos olhos do grupo, a petroleira OGX, a pedir recuperação judicial, na sexta-feira chegou a vez de a empresa construtora naval OSX tomar a mesma decisão. O braço minerador, a MMX, já havia anunciado estar revendo o seu modelo de negócios na Serra Azul de Minas Gerais, na Região Central do estado, em seguida à venda de 65% do ativo estratégico Porto Sudeste, no litoral do Rio de Janeiro, à trading holandesa Trafigura e ao fundo árabe Mubadala.

O qualificado mercado financeiro que apostou nos planos de negócio do grupo X se deu mal, deixando a ganância imperar, observa o consultor e analista de investimentos Miguel Daoud. “O dinheiro investido virou pó e a queda das empresas terá consequências para todos os projetos, inclusive em Minas. Dificilmente eles vão atrair novos investidores, que podem ver neles outros fiascos”, afirma. Líder de um grupo de 70 acionistas minoritários da OGX que se organizam para acionar o ex-bilionário na Justiça, o economista Aurélio Valporto diz que documentos já reunidos reconstituem o blefe que Eike Batista teria dado. E se recusa a fazer mea-culpa. “Ele convenceu não só nós, investidores, mas o mundo, que a campanha exploratória da OGX era bem-sucedida e que a fase do risco havia sido vencida”, rebate.

MUITA AMBIÇÃO E POUCA CAUTELA

O poder de convencimento do empresário Eike Batista se materializou na compra de ações num movimento frenético, independentemente da consistência das empresas que, de fato, eram pré-operacionais ou produziam a um ritmo muito aquém dos planos de negócios alardeados por ele, mas a conta acabaria sendo apresentada ao próprio mercado, destaca o economista e consultor de finanças Paulo Vieira. A confiança foi quebrada pelos comunicados ao próprio mercado desconhecendo as promissoras informações de que a OGX detinha US$ 1 trilhão em petróleo nas águas rasas, somente da Bacia de Campos, e as ações começaram a despencar.

No mercado financeiro, vale o que diz a conhecida canção de Lulu Santos Como uma onda: Nada do que foi será/ de novo do jeito que já foi um dia. “Sobrou ambição e faltou cautela”, resume Paulo Vieira. Ele concorda com o consultor e analista de investimentos Miguel Daoud e o economista Aurélio Valporto na tese de que a cicatriz aberta por Eike Batista levará bom tempo para ser curada. Mal feito para o Brasil, que tanto precisa do mecanismo da compra e venda de ações como impulso ao financiamento do setor produtivo e ao crescimento econômico. O The New York Times noticiou que a dívida total de R$ 11,2 bilhões faz com que a petroleira catapulte o maior calote da história da América Latina.

De vendedor de seguro na Alemanha a investidor na corrida do ouro no Mato Grosso, Eike Batista teve negócios na Amazônia e foi sócio de grandes corporações, como o conglomerado anglo-australiano, Rio Tinto. Na história de Lima Barreto, o sucesso também cresce para o homem que sabia javanês: “Os informados apontavam-me, dizendo aos outros: ‘Lá vai o sujeito que sabe javanês.’ Nas livrarias, os gramáticos consultavam-me sobre a colocação dos pronomes. Recebia cartas dos eruditos do interior, os jornais citavam o meu saber”.

Mas na última década, Eike Batista, que trazia em sua marca o símbolo da multiplicação, e o brilho do sol, se especializou em vender projetos bilionários no Brasil que não se realizavam. A fortuna nada palpável de Eike Batista em pouco mais de um ano encolheu na ordem de US$ 29 bilhões, com a perda de valor de mercado de suas ações, o que o tirou da lista de bilionários da revista norte-americana Forbes. Em setembro último, ainda era de US$ 900 milhões.

Rastro de prejuízo em Minas Gerais
Projetos bilionários eram promessa de desenvolvimento, mas agora geram perdas para investidores e cidades da Grande BH

Antes lotado, restaurante de Maria Silva só funciona no fim de semana

Os impactos do voo de galinha do grupo de Eike Batista foram sentidos não só por grandes e pequenos investidores nas bolsas de valores, mas abalaram pequenas cidades em Minas Gerais, que investiram parcos recursos para receber projetos de milhões de reais, verdadeiras promessas de crescimento econômico, como São Joaquim de Bicas, na Grande Belo Horizonte. Está, também, na expectativa o município de Ribeirão das Neves, que abriga a fábrica SIX Semicondutores, em construção, da qual a EBX detém um terço das ações. O Museu das Minas e do Metal, em BH, teve repasses suspensos pelo Instituto EBX, braço sociocultural do grupo.

No grupo de acionistas minoritários da OGX, entre os 70 investidores que trabalham em processos judiciais contra Eike Batista, liderados pelo economista Aurélio Valporto, há acionistas de Minas Gerais, entre eles o engenheiro Henrique Nunes. O prejuízo está estimado em mais R$ 50 milhões.

Em Bicas, na Grande BH, a MMX Mineração anunciou que a produção na Serra Azul, porção rica em minério de ferro da Região Central de Minas, passaria dos 6 milhões de toneladas de minério extraídas no ano passado para 25 milhões de toneladas anuais até o fim de 2014. Uma meta tão alta que fez a cidade ampliar o horizonte na construção civil.

A contrapartida da mineradora para a cidade de 27 mil habitantes também ficou para trás. Com o recuo do grupo EBX, o orçamento municipal previsto para R$ 65 milhões neste ano minguou em R$ 20 milhões. “Demitimos 100 pessoas, 10% do efetivo da prefeitura. Cancelamos 60% da operação tapa-buracos e suspendemos serviços de drenagem. A Unidade de Pronto Atendimento (UPA), primeira do município, que seria inaugurada neste ano, também terá que esperar pelo orçamento de 2014”, diz o secretário municipal de Obras, Marcos Vinícius Amaral.

Amaral diz que o termo de ajustamento de conduta firmado com a mineradora também não foi adiante com a perda de ritmo do empreendimento: “Ainda faltam R$ 500 mil para a saúde, R$ 3 milhões para obras de pavimentação e uma pista de couper de 1,8 quilômetro”. A MMX informou, por meio de nota, estar revendo seu modelo de negócios.

Lição amarga Marta Silva, de 42 anos, trabalhou com o irmão no restaurante aberto especialmente para atender as obras da MMX. “Meu irmão reformou o restaurante, comprou equipamentos para a cozinha, construiu churrasqueira e contratou pessoal.” Nos primeiros seis meses de funcionamento a casa servia café da manhã, 150 refeições e 160 marmitex. Hoje, só funciona aos sábados e domingos.

O produtor de hortaliças Adair Ângelo da Silva, de 52, apressou seu projeto de construir um prédio para hospedar os trabalhadores da MMX. A princípio, o retorno foi bom e as seis unidades do imóvel foram alugadas. Agora, há um único apartamento alugado pela metade do preço anterior. Na boca dos moradores de Bicas, Eike Batista deixou uma lição. “Não adianta avançar na lua, pensando que é queijo”, resume o comerciante, Manoel Moreira Maia, 67 anos.

FONTE: Estado de Minas.


 

 (Eduardo Almeida/RA Studio)

Arquitetura moderna, museu de arte, zoológico, estádio de futebol e universidade, tudo em um mesmo lugar. Essas são as referências da Pampulha, região que concentra arte, lazer, esporte e educação, além de uma infraestrutura que não deixa nada a dever a outros locais da cidade. Por isso a área é tão valorizada e atrai investidores do mercado imobiliário. Afinal, qualidade de vida é o que toda população quer e encontra na Pampulha.

Entre os bairros que mais se destacam na região, o diretor de atendimento da Morus Imóveis, Vagner Costa, aponta o Ouro Preto, o Jaraguá e o Castelo. “Porque são os únicos que não estão estagnados e ainda têm possibilidade de construção. Mas também há o desenvolvimento de empreendimentos em torno da lagoa, no Bairro Bandeirantes, que é mais residencial. O Bairro Engenho Nogueira é indicado para uma segunda linha de investimentos”, diz.

Além do Ouro Preto, Jaraguá e Castelo, o diretor -executivo da Construtora Oliveira Fortes, Arilson Silveira de Oliveira, indica o Itapoá e o São José. “São bairros com características familiares. É comum percebermos que várias gerações de uma família foram criadas na mesma região e as pessoas querem continuar próximo dos parentes. Além disso, a Pampulha tem localização privilegiada”, completa.

Para o corretor da unidade franqueada RE/MAX Futuro Vinícius Harry, bairros tradicionais têm índices mais altos de ocupação. “Como Ouro Preto, Jaraguá, Dona Clara, Liberdade e Itapoã, com valores mais expressivos por metro quadrado. De ocupação mais recente, o Castelo tem maior número de lançamentos com menores valores por metro quadrado.”

Segundo Vinícius Harry, na região há uma grande quantidade de empreendimentos residenciais de médio padrão, seguidos daqueles de alto padrão. “Há grande oferta de apartamentos novos, principalmente em bairros como Castelo e Ouro Preto. Bairros como Garças e Trevo têm-se destacado pela maior oferta de casas. Existe, ainda, rápida diversificação do comércio, prestação de serviços e escolas. Predominantemente residencial a região da Pampulha atrai também investimentos comerciais. Um dos motivos é o Mundial de futebol de 2014. “E investimentos em hotéis para a Copa do Mundo de 2014. Fora isso, a oferta comercial não é tão grande. A maioria dos empreendimentos desse perfil é formada por shoppings.”

A opção da advogada Simone Villarino foi por um imóvel pronto, no Bairro Castelo. Em 2006, ela comprou uma cobertura e hoje tem certeza de que foi um excelente investimento. “A região é muito agradável para morar e valorizou muito. Tem lazer, parque ecológico, a lagoa da Pampulha para praticar atividades físicas, academias, supermercados e bares. A infraestrutura é completa para a qualidade de vida.”

Valorizados e raros
Com o aumento da procura e a redução do coeficiente de ocupação do solo na região da Pampulha, apartamentos de dois quartos, flats e lojas já são os mais comercializados

Igreja de São Francisco de Assis, cartão postal da cidade, no circuito que inclui Museu de Arte Moderna e a Casa do Baile. Primores da arquitetura de Oscar Niemeyer e da pintura de Cândido Portinari (Beto Novaes/EM/DA Press)
Igreja de São Francisco de Assis, cartão postal da cidade, no circuito que inclui Museu de Arte Moderna e a Casa do Baile. Primores da arquitetura de Oscar Niemeyer e da pintura de Cândido Portinari

Com a procura pela Pampulha, a oferta de terrenos tornou-se escassa, como constata Vagner Costa. Principalmente após 2010. “Antes, ao comparar os valores, o interessado via na região uma grande oportunidade, com preço acessível. A Pampulha também era atrativa para incorporadoras, por ter bons terrenos e grande potencial. Mas mesmo com a diminuição da oferta, ainda há áreas que vão propiciar bons lançamentos para os próximos cinco anos até que a região fique estabilizada”, conta.

Entretanto, Arilson Oliveira, da Construtora Oliveira Fortes, diz que após a mudança da Lei de Uso e Ocupação do Solo de Belo Horizonte, houve uma diminuição significativa do coeficiente de aproveitamento de terrenos em alguns bairros da Pampulha. “Além disso, houve menor oferta do número de terrenos na região. Alguns bairros ainda oferecem algumas opções, como o Castelo.”

Nesses terrenos são erguidos, principalmente, empreendimentos com apartamentos de dois quartos, conforme Oliveira. “Tem maior liquidez no mercado e um preço mais atrativo, obviamente, pelo próprio tamanho. Os compradores desses apartamentos são, geralmente, pessoas jovens, principalmente casais com um a dois filhos.”

Esse público prefere a Pampulha por ser uma região com características únicas, que proporcionam lazer, gastronomia, descanso e uma melhor qualidade de vida aos seus moradores, como reforça Oliveira. “Possui também infraestrutura com shopping e uma diversidade de lojas que consegue atender essa demanda local.”

“A região abriga bairros com características familiares e casais começando a vida, com um ou dois filhos” – Arilson Silveira de Oliveira, diretor-executivo da Oliveira Fortes

De acordo com o corretor Vinícius Harry, por ser uma região em expansão, a maior procura é por imóveis de dois quartos com suíte e duas vagas na garagem. “Geralmente, almejados por noivos e casais que estão optando por sair do aluguel e procuram o primeiro imóvel. Também vêm sendo muito procurados apartamentos e coberturas luxuosas, com quatro quartos e três ou mais vagas de garagem. São produtos escassos, com alta demanda, menor oferta e maior velocidade de venda.”

E não são só os residenciais que chamam a atenção. Os imóveis comerciais, entre eles salas e lojas, também continuam com uma boa procura. “Boa parte desses investidores são da própria região e acreditam no seu potencial de desenvolvimento e crescimento. Eles são representados por comerciantes de pequeno e médio portes que desejam investir em empreendimentos como salas, lojas e unidades hoteleiras, e também em apartamentos com maior liquidez”, observa Oliveira.

Mas o destaque, segundo o diretor da Construtora Oliveira Fortes, são os flats, que de acordo com ele estão em alta. “São unidades hoteleiras na região da Pampulha e sentido Centro Administrativo. Os flats têm uma característica muito especial, tanto na distribuição do seu resultado como na própria configuração jurídica, que proporciona aos investidores condições muito melhores que nas locações de imóveis convencionais.”

Vagner Costa confirma que os mais valorizados são os imóveis residenciais com boa estrutura de lazer e mais de uma vaga de garagem. “A Morus tem em seu portfólio empreendimentos no Jaraguá, Ouro Preto, Castelo, Engenho Nogueira e Planalto. Desses, 90% são residenciais e 10% compostos pela linha hoteleira, o que representa bem a relação de oferta da região como um todo.”

Para ele, a oferta atual de imóveis está adequada à demanda. “Talvez o Bairro Castelo tenha um pouco mais de estoque, sendo que nos outros a liquidez é mais imediata. Entre as pessoas que apostam na região estão investidores na linha residencial, que compram o imóvel na planta para revender, aqueles que adquirem para locação e os que investem na rede hoteleira”, indica Costa.

Infraestrutura completa para viver com qualidade de vida motivou a compra de Simone Villarino (Eduardo Almeida/RA Studio)
Infraestrutura completa para viver com qualidade de vida motivou a compra de Simone Villarino

Com relação a valores, Vagner Costa informa que cerca de 50% dos empreendimentos na região estão entre R$ 200 mil a R$ 350 mil. “Nessa faixa, 25% são econômicos, com valores de R$ 100 mil a R$ 200 mil, e os 25% restantes são compostos por imóveis acima de R$ 400 mil, sendo o público da Pampulha formado pelas classes B e C”, diz.

Atualmente, dentro do plano de governo de desenvolvimento integrado, como informa Costa, a Pampulha tem como grandes vantagens o fato de estar bem localizada. “Assim, deixou de ser apenas um ponto turístico para se tornar um campo de investimento. A área urbana de Belo Horizonte está expandindo bastante, principalmente para o Vetor Norte, fazendo com que a região da Pampulha se torne o coração da cidade”, considera.

MEMÓRIA
Aeroporto muda estilo do bairro

Na época do Curral Del-Rei, arraial que deu lugar à capital, a região era conhecida como Arraial da Pampulha. Há notícias de que os primeiros habitantes vieram de Portugal e quiseram transformar esse cantinho do Brasil em um lugar que os fizesse lembrar a sua terra natal. Batizaram a região com o mesmo nome do bairro onde viviam em Lisboa e que já não existe mais. A vida na Pampulha tinha o ritmo tranquilo do dia a dia na área rural, com poucas casas. As vias não eram pavimentadas e os bondes não circulavam por lá. Apesar das atividades de agricultura e manufatura, os poderes públicos acreditavam que Pampulha poderia trazer um progresso maior para Belo Horizonte se ajudasse no abastecimento de água e na aproximação da cidade com outras capitais. Assim, em 1930 começaram as obras de construção de uma barragem que iria deter o curso das águas do Ribeirão Pampulha, formando uma represa que serviria de reservatório de água. A barragem formava um amplo lago artificial, a lagoa da Pampulha, e foram criadas assim as condições para as obras do aeroporto, inaugurado em 1933.

FONTE: Estado de Minas.


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