Antequam noveris, a laudando et vituperando abstine. Tutum silentium praemium.

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Estudo norte-americano indica que o cérebro de mulheres é ativado de forma semelhante diante de fotografias de suas crianças e de seus cães

Cães mulheres

Eles já não são mais simples donos de cachorros. Hoje, muitos proprietários de animais de estimação preferem chamar seus xodós de “filhos”. E não é só uma questão semântica: os pets ganham guarda-roupa próprio, dormem na cama dos “pais”, ganham presente no Dia das Crianças — enfim, ocupam um espaço privilegiado na família. Curiosa com essa relação construída com os bichos domésticos, uma equipe de pesquisadores do Hospital Geral de Massachussetts, nos Estados Unidos, decidiu investigar se, além do coração, o cérebro reconhece os cachorros como filhos de verdade. “Os animais domésticos ocupam um lugar especial no coração e nas vidas de muitas pessoas, e há evidências convincentes de estudos clínicos e laboratoriais de que interagir com pets pode ser benéfico para o bem-estar físico, social e emocional dos humanos”, defende Lori Palley, pesquisadora do Centro de Medicina Comparativa do hospital e coautora do estudo. Ela lembra que a domesticação dos cães começou entre 18 mil e 32 mil anos atrás, e que a prática de dispensar cuidados paternais a eles é um comportamento comum em diferentes culturas, que provavelmente emergiu da necessidade evolutiva de tê-los como companheiros fiéis. 

De acordo com Palley, aproximadamente dois terços dos lares americanos têm animais de estimação, e mais de US$ 50 bilhões são gastos anualmente com eles. No Brasil, há um cachorro para cada seis habitantes, e dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística indicam que, nos últimos quatro anos, aumentou 17,6% a população de cães e gatos domésticos no país. “Na mídia, os proprietários já são chamados de ‘pais de pets’ e metade deles considera que seus animais são tão parte da família quanto qualquer outro integrante da casa”, afirma Palley, citando uma pesquisa de 2009. 

A médica revela que muitos estudos anteriores constataram que níveis de neuro-hormônios, como a oxitocina, envolvidos no processo de ligação emotiva e vínculo materno, aumentam depois da interação com os pets. “Novas tecnologias de imagem estão nos ajudando a começar a entender as bases neurobiológicas dessa relação, o que é bastante animador”, afirma. 

Coincidências Para comparar os padrões de atividade cerebral envolvidos na relação humanos-pet e aqueles suscitados pela interação mãe-filho, o estudo recrutou um grupo de mulheres com pelo menos um filho de 2 a 10 anos e um cachorro que havia entrado para a família mais de dois anos antes do estudo. A pesquisa foi dividida em duas sessões. Na primeira, as participantes receberam os cientistas em casa e completaram diversos questionários, incluindo perguntas sobre sua relação tanto com os filhos quanto com os cães. Os pets e as crianças foram fotografados na casa das voluntárias. 

Na segunda fase, as participantes foram até o Centro de Imagens Biomédicas do Hospital Geral de Massachussetts, onde se submeteram ao exame de ressonância magnética funcional. Esse teste não invasivo indica os níveis de ativação de determinadas estruturas cerebrais, detectando alterações no fluxo sanguíneo e nas taxas de oxigenação. Os cientistas mostraram uma sequência de fotografias enquanto as mulheres faziam o exame. As imagens incluíam os filhos das voluntárias e seus cachorros, alternados com retratos de crianças desconhecidas e cães pertencentes a outras pessoas. No fim, cada participante completou algumas tarefas, incluindo um teste de reconhecimento de imagem, para confirmar se ela havia prestado atenção às fotos apresentadas durante o escaneamento. As mulheres também deram notas para diversas imagens mostradas durante a sessão em relação ao nível de prazer que essas fotos haviam despertado. 

Os resultados revelaram semelhanças e diferenças na forma como importantes regiões cerebrais reagem à imagem de um filho e de um cão. Áreas previamente associadas a funções como emoção, recompensa, afiliação, processamento visual e interação social tiveram aumento de atividade quando as participantes viram tanto as crianças quanto seus pets. Porém, uma região implicada na formação do vínculo mãe-filho se ativou apenas em resposta à imagem da criança. Já o giro fusiforme, envolvido no reconhecimento facial e em outras funções de processamento visual, teve uma resposta mais expressiva quando as mulheres viam a foto de seus cachorros. 

“Embora seja um pequeno estudo que pode não se aplicar a outras pessoas, o resultado sugere que há um circuito cerebral comum importante para a criação e a manutenção de ligação emocional, ativado quando as mães veem imagens tanto de suas crianças quanto de seus cachorros”, conta o psiquiatra Luke Stoeckel, coautor do trabalho. Os pesquisadores observam que mais estudos são necessários para replicar a descoberta, principalmente aumentando a amostra e incluindo outras populações, como mulheres sem filhos e homens. “Combinar estudos de ressonância com testes adicionais de comportamento e psicologia também nos ajudará a obter evidências que suportem o que observamos”, acredita Lori Palley.

Amor incondicional Na casa da comerciante Ana Paula Breder, 29 anos, o pug Hulk, 8 meses, é o caçulinha da família. O cão foi presente do marido de Ana, que estava muito triste com a perda de Yuri, um yorkshire que morreu de leishmaniose no início do ano. “Eu estava muito triste e só chorando. Foi muito difícil, pois não queria mais um cãozinho, até que esse gordinho ganhou meu coração e o dos meus filhos”, conta. Bagunceiro e sempre aprontando, Hulk faz a alegria das crianças da casa, Matheus, 5 anos, e João Lucas, 1. “O Hulk é um filho para nós, superprotegido e muito amado. Ele, com toda certeza, é um membro da minha família”, diz Ana Paula. 

Para a estudante de fisioterapia Erika Mercier, 41 anos, o west terrier Drake, 9, é como um filho. Tanto que ela não considera sacrificante fazer coisas como passar o réveillon debaixo da cama com o cãozinho, que tem medo de fogos, deixar de ir a algumas festas para ficar com ele, oferecer água filtrada e frutas cortadas… “Todo dia, ouço alguma crítica: ‘Deixa de ser boba, é só um cachorro, não é gente’. Eu falo: ‘Para mim, é um filho peludo de quatro patas’”, conta. 

A comerciante Ana Paula também sofre críticas pelo fato de o pug Hulk conviver diretamente com os “irmãos”, principalmente com o bebê. “Dizem que ele vai passar doenças, mas nem ligo, pois meus filhos o amam e são correspondidos. Ele tem acesso total aos meus filhos: eles brincam, dormem e fazem tudo juntos. Com toda certeza, o Hulk está no meu coração. Ele trouxe a luz e a alegria que faltavam. Nós não saberíamos viver sem ele hoje. É um amor incondicional ao gordinho”, derrete-se a “mãe” coruja, que até uma conta no Instagram fez para o pug. 

“Para famílias com filhos pequenos, os pets podem ser parte de um sistema de suporte social e fornecer oportunidades para educar as crianças”, observa a veterinária Lynette A. Hart, pesquisadora da Universidade da Califórnia em Davis e autora de diversos livros sobre a relação entre humanos e animais domésticos. Depois de mais de quatro décadas de investigações nessa área, ela constatou que, ao contrário do que dizem os estereótipos, pessoas sozinhas e solitárias não são as que mais adotam os pets nem as que relatam maior vínculo afetivo com os bichos. “Pode parecer paradoxal, mas isso é mais comum em famílias com filhos. Há uma forte relação entre ter animais com a coesão, o vínculo emocional e o respeito mútuo familiares. Ter uma relação próxima com seu pet pode ser um indicador da saúde das relações da família”, afirma.

FONTE: Estado de Minas.


Criança terá nome do pai e de duas mães em documento

Decisão inédita abre precedentes para situações semelhantes no restante do País. Promotoria não questionou sentença

A vida imita a arte…

duas mães

Uma decisão inédita da Justiça assegurou o direito a uma menina, nascida no último dia 27 de agosto, de ter em sua certidão de nascimento o nome do pai, de duas mães e dos seis avós. A sentença, proferida pelo juiz de Direito Rafael Pagnon Cunha nessa quinta-feira, não foi questionada pela promotoria e, 15 dias após a entrada do processo, a família teve o pedido assegurado por lei, abrindo precedentes para situações semelhantes no restante do PaísAs mães da menina são companheiras há quatro anos e casadas formalmente há dois meses. O pai biológico é um amigo das duas que concordou em ser o genitor, desde que isso constasse nos documentos. O Cartório do Registro Civil teve de adaptar seus sistemas para poder fazer constar todos os nomes, inclusive dos três pares de avós, um paterno e dois maternos.

A ação de suprimento de registro civil com multimaternidade foi movida pelos genitores e pela parceira da gestante em comum acordo, segundo descrição contida no despacho do magistrado. “Narraram que a gestação foi concertada pelos três, com concepção natural, intentando fazer constar no registro civil do nascituro os nomes do pai e das duas mães, bem como de seus ascendentes”, descreve o magistrado.

Na sentença, o juiz destaca que “o que intentam Fernanda, Mariani e Luís Guilherme, admiravelmente, é assegurar à sua filha uma rede de afetos. E ao Judiciário, guardador das promessas do Constituinte de uma sociedade fraterna, igualitária, afetiva, nada mais resta que dar guarida à pretensão – por maior desacomodação que o novo e o diferente despertem”.

FONTE: Estado de Minas.


COM ESTE ARTIGO O BLOG HOMENAGEIA E DÁ OS PARABÉNS A TODAS AS MÃES DO MUNDO, EM ESPECIAL ÀS NOSSAS PROFESSORAS E FUNCIONÁRIAS DA UNIVERSO E ÀS NOSSA AMIGAS, IRMÃS, MÃES, PRIMAS, ESPOSAS, CUNHADAS, AVÓS, TIAS, COLEGAS, LEITORAS ET COETERA! ABRAÇÃO!

Mãe

 

Causídicas conciliam a maternidade com a carreira na área jurídica, marcada por prazos exíguos e jornadas de trabalho sem previsão de término.

 

A mulher, enquanto se esforça para passar da melhor forma possível pelo momento em que dá à luz, esquece momentaneamente do trabalho ou qualquer outra atividade que não seja o pequeno ser que vem ao mundo. Mas, querendo ou não, as exigências destas atividades irão chegar. E, quando se fala em advogadas, não são poucas.

É preciso lembrar que no mesmo dia em que a mulher advogada está na sala de parto ela pode também ter um prazo expirando, precisando assim contar com a ajuda ou contratação de colegas para cumprir sua tarefa.” A lembrança é da advogada Fernanda Marinela Santos, presidente da Comissão Especial da Mulher Advogada do Conselho Federal da OAB.

O Brasil tem hoje 370 mil advogadas e 22 mil estagiárias. São milhares as mulheres que encaram o desafio de conciliar a maternidade com a carreira na advocacia, marcada por prazos exíguos, jornadas de trabalho sem previsão de término e demandas a perder de vista. Especialmente no momento da gravidez e da lactação, as condições adequadas para o exercício da tarefa maternal sem que a mulher tenha que abdicar da carreira fazem toda a diferença.

E não só dos escritórios partem os obstáculos. A advogada Daniela Teixeira (Advocacia Daniela Teixeira) compartilha experiência difícil suportada em sessão do CNJ: “Quando estava grávida de seis meses fui fazer uma sustentação oral no CNJ, o órgão encarregado de exigir boas práticas de todo o Judiciário. Apesar de ter pedido preferência ao presidente Joaquim Barbosa para que o processo fosse logo chamado, ele me fez esperar seis horas sentada. Um desrespeito comigo e uma ilegalidade contra minha pequena Julia, que tem garantia constitucional de tratamento privilegiado. Infelizmente, não temos nenhum privilégio, nem mesmo bom senso do Judiciário.”

Nesse cenário, a colaboração de todos é sempre muito bem-vinda. A advogada Viviane Perez, sócia do escritório Roberto Algranti Advogados Associados, destaca a sorte de ter trabalhado sempre em locais compreensivos com as questões que envolvem a maternidade. “No meu caso, em escritório anterior [Luís Roberto Barroso & Associados], sai pouco antes do parto da minha filha. Com três meses comecei, por opção própria, a ir duas vezes por semana ao escritório. Até hoje, já em outra banca, tento chegar mais tarde e sair mais tarde, assim consigo passar a manhã com a minha filha.” Curiosidade: o depoimento foi dado enquanto a advogada, após ter se organizado no escritório, deslocava-se para uma festa de Dia das Mães na escola da filha.

Prazos e anuidade

Não sem motivo, Comissão Especial da Mulher Advogada da OAB pretende elaborar PL para a garantia de um parto tranquilo para a mulher advogada, estabelecendo um período de suspensão de prazos e realização de audiências logo após o parto. O projeto busca garantir à mulher advogada, gestante ou lactante a prioridade e/ou flexibilidade no horário das audiências, o que já é realidade desde o ano passado para as causídicas que atuam na comarca de Lages/SC.

Lá, duas juízas – Patrícia Pereira de Sant’Anna (foto) e Karem Mirian Didoné, titulares das 1ª e 2ª varas do Trabalho, respectivamente – editaram portaria (1/13) que dá preferência de horário na designação das audiências iniciais na JT a advogadas que são gestantes, lactantes ou estiverem acompanhadas de crianças de colo.

No RR, em 2012, a pedido do então presidente da seccional, Oneildo Ferreira, que faz parte da atual diretoria do CFOAB, a mesma atitude foi adotada.

Diante destas experiências bem sucedidas, a OAB busca a edição de resolução nesse sentido pelo CNJ, para que estas auspiciosas práticas deixem de ser atos isolados e possam se estender para todo o Judiciário.

Entre as frentes nas quais a OAB tem atuado, a comissão quer viabilizar no Conselho Federal da OAB a possibilidade de isenção da anuidade para mulher advogada no ano do parto; verificar a viabilidade nas Caixas de Assistência de instalação de creches para as advogadas que não têm com quem deixar seus filhos e incentivar, também com o apoio das Caixas de Assistência, campanhas de saúde para as mulheres advogadas.

Assim, há muito a ser feito ainda, mas o mais importante é que os trabalhos estão caminhando e é preciso realmente avançar. São anos de lutas para que a sociedade e as autoridades enxerguem a questão da mulher-mãe-profissional como prioridade, como um caminho inevitável para o desenvolvimento do país”, assinala Marinela.

O deputado João Campos apresentou, em 2007, PL que dispôs sobre a suspensão de prazos processuais quando a única advogada da causa deu à luz, alterando o CPC. O PL foi declarado prejudicado em março deste ano diante da aprovação da emenda aglutinativa substitutiva global nº 6.

Em 2010, o pleno do Conselho Federal da OAB aprovou uma série de propostas em prol da advogada gestante e encaminhou-as ao CNJ. As propostas foram apresentadas pela então conselheira Federal da OAB pelo DF, Daniela Teixeira, mãe de Julia e Gabriel. Entre as proposições:

  • que a advogada, quando gestante, não seja obrigada a se submeter a detectores de metais e aparelhos de raio-x nas entradas dos tribunais;
  • que as audiências e julgamentos com a presença de advogadas gestantes sejam agendados no início do expediente forense;
  • que sejam reservadas vagas nas garagens dos fóruns;
  • possibilidade de acesso da advogada lactante às creches (onde houver) ou local condizente nos períodos de alimentação.

Como justificativa para os pleitos, Daniela Teixeira relatou uma passagem pessoal: “Quando eu estava grávida, tive negado o meu pleito de me submeter à revista pessoal ao invés de ter que passar pelo raio-x na entrada dos tribunais. Tive que passar por eles de sete a oito vezes por dia para trabalhar“, afirmou ela, criticando, ainda, que por várias vezes teve que amamentar o filho Gabriel nos banheiros dos tribunais porque não lhe foi concedido acesso às creches dos fóruns.

Auxílio onde for possível

Ainda que não haja legislação específica para as advogadas, os escritórios e estruturas do Judiciário podem contribuir, e muito, para os desafios que a maternidade impõe às profissionais do Direito.

De acordo com Fernanda, a primeira medida é respeitar os direitos trabalhistas à licença e salário maternidade, a estabilidade e as pausas para amamentação. “Estes direitos são muitas vezes ignorados pelos escritórios sob o argumento de serem as advogadas profissionais liberais, ou seja, no momento em que a mulher-mãe precisa de maior apoio ela é obrigada, em sua maioria, em ter que optar entre o trabalho e a família.” Tudo isso sem nos esquecermos, também, das mães que já passaram do período de amamentação e, claro, das que adotam.

É notório no mercado que as carreiras das mulheres tendem a sofrer desaceleração quanto atreladas à maternidade, e no meio jurídico não é diferente. “Mesmo não estando mais no período de gestação ou sendo lactante, a mulher-mãe, por exercer dupla jornada, sendo a principal responsável pela educação dos filhos e de todas as tarefas que envolvem os cuidados com a família, é preteria nos cargos mais elevados ou é considerada previamente sem perfil para exercer atividades de maior responsabilidade nos escritórios, sendo muitas vezes, avaliada de forma preconceituosa acerca da sua capacidade.” Para a presidente da Comissão, é imprescindível prezar pela qualidade e não pela quantidade “e, infelizmente, esta é uma visão de poucos escritórios de advocacia”.

O trabalho remoto pode ser outro aliado nesse contexto. “O home office é uma opção para ajudar as mães a manterem a produtividade. Em situações emergenciais, que a mãe precisa sair mais cedo do escritório para cuidar de um filho com febre ela consegue, mais tarde, à noite, dar continuidade ao trabalho“, exemplifica a advogada Viviane Perez.

Enfim, o fato é que atitudes alvissareiras como as das juízas Patrícia Pereira e Karem Didoné (foto) têm o condão de sanar a lacuna legislativa. E é dessa forma que as mães podem se beneficiar, ou, melhor dizendo, se igualar aos homens em condições de trabalho e oportunidade.

FONTE: Migalhas.


 

Mulheres com deficiência física falam das delícias e desafios da maternidade

 

Margarida tem muitas dificuldades para conseguir táxis e não consegue frequentar as reuniões de pais no colégio de Raphael. Fernanda já foi questionada sobre o motivo de ainda não ter se aposentado por invalidez. Tatiana demorou, mas se acostumou e agora ressignifica os olhares condolentes. Quando você estiver lendo essa reportagem, todo o otimismo de mercado, as expectativas para o aumento de vendas e os prospectos de faturamento já serão notícias datadas. O Dia das Mães já bate à porta. E diferentemente das flores de supermercado – clássico presente dos atrasados e distraídos –, o que nunca envelhece são as homenagens. As mulheres que o Pampulha homenageia nesta edição têm em comum muito além do fato de possuírem fatores limitantes de locomoção: são mães. Elas superam várias vezes ao dia a descrença, o preconceito, a falta de infra-estrutura da cidade e a labuta árdua e encantadora que é educar uma criança.
Por mais que a discriminação já devesse ser flor murcha há tempos, ela ainda desabrocha. Mesmo num país com mais de 13 milhões de deficientes físicos (dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), estranhamento e mitos rondam duplamente quando a questão é maternidade. Pouquíssimo abordado, o tema causa desconforto até entre a classe médica, que muitas vezes desaconselha erroneamente a gravidez para mulheres em cadeiras de rodas. Entre a sociedade, também é quase esquecido o fato de que a mulher portadora de deficiência continua fértil e totalmente capaz de levar uma vida sexual ativa, como se a limitação motora representasse necessariamente uma disfunção sexual.
“O que eu percebo é que existe muita falta de informação”, conta a servidora pública Fernanda Maciel, 34, que, no Dia das Mães do ano passado, recebeu de presente o pequeno Tomás. “Alguns termos guardam muitos significados. Já me perguntaram por que eu não me aposentei por invalidez. Nós somos ensinados a pensar que os deficientes não deveriam viver igual a todo mundo e isso nutriu o preconceito enorme que existe. Muitas vezes a muleta salta aos olhos antes de mim, mas a deficiência é apenas mais uma das minhas características. Antes de tudo, eu sou mulher”, explica Fernanda.
A propósito do preconceito contido na pergunta e no termo, Fernanda retrucou afirmando que nunca deixou de ser válida, a despeito do que as suas bengalas canadenses possam dar a entender aos mais desavisados. Ela precisa do apoio desde os 21 anos, por conta de uma lesão medular que provocou redução de força e sensibilidade nos membros inferiores, e não esconde o medo que precedeu a superação. “Durante muito tempo, duvidei que fosse possível engravidar e segurar meu filho no colo por causa da muleta. Mas logo descobri que a maternidade é mais que isso – tem outras possibilidades de contato que não as tradicionalmente conhecidas. Sempre quis passar pela experiência de ser mãe, mas na hora foi uma aposta – tive que adaptar tudo dentro de casa e até dentro do contexto familiar. Fiz tudo pra que eu tivesse a maior autonomia possível. Prefiro fazer sozinha, mas em alguns momentos não consigo. Fico feliz, porque até quem não tem deficiência tem seus limites”.
Diferentes iguais 
Elas trocam fraldas, dão banho, bronca e carinho, amamentam, levam e buscam na escola. Todo dia elas fazem tudo sempre igual, e querem ser vistas como semelhantes – mas para tanto precisam de reconhecimento. Belo Horizonte não possui nenhum centro de referência para a mulher com deficiência e é apenas a quinta capital em ruas adaptadas para os usuários de cadeiras de rodas: menos de 10% das vias possuem rampas. “Aqui onde estou morando, por exemplo, não consigo ir ao supermercado”, conta a servidora do Judiciário Federal Margarida Lages, moradora da Vila da Serra. “Muito morro complica. Tive que aprender a dirigir, mas ainda existe a grande dificuldade que é colocar e tirar a cadeira do carro”, explica Margarida, 47, que desde 97 pilota uma cadeira motorizada, em decorrência da atrofia muscular espinhal – doença degenerativa congênita que atinge toda a sua parte neurotransmissora e prejudica, principalmente, os movimentos abaixo da cintura.
“Andar na rua é bem difícil: os passeios ainda não são todos adaptados, existem muitos degraus e calçadas esburacadas. Não existem muitos táxis acessíveis e o transporte público não funciona bem: são poucos ônibus com elevador e muitos não funcionam, ainda mais quando eles param em locais inclinados. Esses dias desmarquei uma consulta do meu filho porque o hospital não tinha acesso. Nem a escola dele tem rampas de acesso. Quero ser uma mãe mais participativa e não consigo”, lamenta Margarida sobre o colégio em que Raphael, 13, estuda por estar mais perto de casa.
“As dificuldades de acessibilidade são inúmeras”, concorda Fernanda. “Onde vou sempre procuro instâncias adequadas para tornar o ambiente possível e acessível. Muitos lugares se esquecem da diversidade e da minoria”, comenta Fernanda, que trocaria toda compaixão por melhores condições. “Não precisamos de pena, nem que nos vitimizem nem que nos desvalorizem. A deficiência não muda quase nada em minha vida, ela só me limita fisicamente. Vivo a maternidade da mesma maneira que todas as mulheres vivem. Acho até bacana que a criança filha de mãe com deficiência vai mais tarde lidar com a diferença de forma muito natural, que é a forma ideal que a sociedade deveria nos enxergar. Nós passamos por tudo que todo mundo passa, igualzinho”.
Determinadas, independentes e incansáveis, essas mães compartilham, acima de tudo, a vontade de que a vida pare de ser reduzida à deficiência.
“Eu nunca fui dependente. É claro que existem frustrações e desafios, mas quem não tem? O sentimento de ter a responsabilidade sobre o bem-estar de alguém é muito bacana e compensa tudo. A cumplicidade que nós construimos também ajuda muito. Outras mães sempre se impressionaram com o modo como ele me obedecia só com o olhar”, comenta Margarida, solteira, que contou com ajuda de empregadas domésticas para criar Raphael até que ele fizesse 10 anos. “Elas ajudavam com a casa e eu cuidava do meu filho. Para a minha surpresa e de todo mundo, eu dei conta de tudo. Ele adorava a cadeira de rodas e até dormia com o balanço. Sempre adorou a carona”, brinca a mãe, que batalhou por Raphael antes mesmo da concepção em luta travada com seus ovários policísticos. “Foi difícil e a preparação de tudo deu trabalho, mas hoje não imagino mais a minha vida sem esse serzinho”.
“Tem que olhar no olho”
“Me considero uma mãe que se transforma e se descobre todos os dias. Sou muito ligada, muito dinâmica, muito eu e antes me preocupava onde caberia um filho nesse caminho. Mas sempre quis ter um pedacinho de mim. Já tinha um livro e queria plantar a árvore na companhia do meu filho. Antes que passasse a oportunidade e o desejo, engravidei”, conta a paulista Tatiana Rolim, que a cada par de minutos pede licença da entrevista para trocar fraldas ou retribuir beijos.
Ela é mãe de Maria Eduarda, de 3 anos e meio, psicóloga e autora dos livros “Meu Andar Sobre Rodas” (2008) e “Maria de Rodas – Delícias e Desafios na Maternidade de Mulheres Cadeirantes”. Sua terceira publicação já está a caminho, lançando luz sobre direitos dos deficientes físicos no mercado de trabalho. Embaixadora da inclusão, Tatiana roda o Brasil com palestras que comentam sobre o Seguro DPVAT, que indeniza feridos em acidentes de trânsito e sobre outras situações que podem prevenir complicações em gestantes com deficiências.
Entre o acidente que a privou de andar e a gravidez, no entanto, Tatiana também teve um longo percurso de aceitação e adaptação. “Qualquer olhar me doía, eu só percebia dó. Depois fui me acostumando e me redescobrindo, até que achei um olhar de paixão e recomecei tudo. Vi que, de novo, eu podia tudo”, lembra, sobre o momento quando conheceu o pai de sua filha, hoje, seu ex-marido.
Em comum entre Tatiana e Margarida Lages (a mãe do pequeno Raphael) há, ainda, o fato de criarem as crianças sozinhas. Elas dão olé em todas as expectativas e atropelam quem duvida. “O que eu menos queria era que a minha filha tivesse um pai ausente. Mas a nossa luta é pra que ninguém duvide do que somos capazes. A gente quer contribuir pra que as pessoas acreditem, apostem e invistam na possibilidade de felicidade. Tive a sorte que desde cedinho a Maria Eduarda já entendia os meus olhares e comandos de voz. Olhar no olho é fundamental”, desabafa Tatiana, enquanto Margarida comenta que a ausência do parceiro foi uma questão que ela sempre tirou de letra. “Eu trabalho em casa, então sempre pude dar toda a assistência que o Raphael precisa. Sem ninguém é muito difícil, mas eu tinha as meninas que me ajudavam em casa e confiava muito em mim mesma: sempre fiz tudo normalmente. Desde pequeno, ele sempre me entendeu e obedeceu, mesmo que de longe, só trocando olhares. Agora que ele já está maior, nós já até fizemos um cruzeiro juntos, só nós dois”, conta a funcionária pública.
E questionadas sobre o maior presente que poderiam ganhar neste domingo, as mães são novamente unânimes. Margarida ataca de coruja e defende que Raphael já é a coisa mais fofa que existe e Tatiana conta sobre os momentos impagáveis. “Tô aqui conversando com você e do nada ganho um beijo. Ela passou, beijou e soltou ‘eu te amo’. Agora ela está ali sentada desenhando coisas ininteligíveis e lindas e inventando uma música. No fim, isso é o que importa”.
FONTE: O Tempo.

 


Corações e lares mais abertos à diversidade e ao fim do preconceito
Capa Minas - Dia da Adoção - Toninho Almada - Hoje em Dia
Adenísia e Wellington ampliaram a faixa etária dos filhos que gostariam de receber

Hoje é dia de dar parabéns a pais e mães que deixaram de lado preconceitos para viver um amor incondicional, e a crianças que ganharam uma nova família. No Dia da Adoção, há o que se comemorar: em Belo Horizonte, nos últimos anos, a predominante exigência dos pretendentes por recém-nascidos brancos tem diminuído.

Segundo o setor de estudos familiares da Vara da Infância e Juventude da capital, em 1995, 12% dos candidatos a pais queriam bebês de até um mês de vida. Em 2012, eram apenas 3%. No mesmo período, as pessoas que só aceitavam bebês de até um ano passaram de 61% para 44%.
Em relação à cor, também houve mudança. Há 18 anos, 42% dos pretendentes queriam bebês brancos; em 2012, 25% tinham essa preferência.
O Cadastro Nacional de Adoção (CNA), mantido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), não tem dados só de Minas, mas apurou que na região Sudeste do Brasil 30% dos adultos inscritos aceitam apenas crianças brancas.
Flexibilidade
Segundo o psicólogo da Vara da Infância Fernando Araújo, a mudança no perfil é reflexo de um movimento geral da sociedade, que tem aceitado mais a diversidade. Como a funcionária pública Fernanda Isoni, de 37 anos, que tem quatro filhos, dois adotivos: Isabella, de 13, e Alex, 20, acolhidos aos 7 e 13, respectivamente.
Fernanda não pensava em engravidar de novo, mas sonhava com uma menina – a única exigência. “As pessoas questionam se Isabella é minha mesmo, por ela ser negra, mas não me importo. Não faço distinção entre meus filhos”, avisa. “Ela é uma mãezona e me ama muito!”, afirma Isabella.
Para a vice-coordenadora do Grupo de Apoio à Adoção de BH (GAABH), Rosália Sanábio, a cultura da adoção está melhorando. Há três décadas, o ato era visto como caridade ou forma de ter alguém para acompanhar as pessoas na velhice.
“Hoje, é percebido como outra forma de se criar, amorosamente, uma família. O amor, uma vez construído, é indissolúvel”, diz.
FONTE: Hoje Em Dia.


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