Antequam noveris, a laudando et vituperando abstine. Tutum silentium praemium.

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Jovens invadem mineradora em Paracatu para furtar ouro e morrem dentro de tubulação

Os dois homens estavam com outras 13 pessoas no local. Eles acabaram asfixiados por gás. O restante do grupo fugiu do local

A tentativa de furtar ouro de uma mineradora em Paracatu, na Região Noroeste de Minas Gerais, terminou em tragédia. Aproximadamente 15 pessoas entraram na tubulação da empresa que leva os rejeitos de minério até uma barragem. Porém, dois jovens, de 25 e 22 anos, passaram mal e morreram no local. Autoridades afirmam que a ação é recorrente na área.

Os garimpeiros invadiram a área da empresa Kinross Gold Corporation na noite de segunda-feira. Porém, quando o grupo estava na tubulação, dois jovens desmaiaram, possivelmente por causa do vazamento de gás. O Corpo de Bombeiros de Unaí foi acionado para fazer o resgate.

A tubulação onde ficaram presos tem aproximadamente um quilômetro de extensão. Os militares tiveram dificuldades para chegar até os corpos. “É um local de difícil acesso, com visibilidade prejudicada e presença de gases. Tivemos que utilizar equipamentos de proteção respiratória ao entrar no tubo. Chegamos a ouvir vozes, mas não conseguimos localizar ninguém”, explica o segundo-sargento Higor Gonçalves Mourão.

As buscas foram suspensas por causa dos riscos que os militares corriam, mas foram retomada na manhã de terça-feira. “Havia muitos rejeitos com água descendo pela tubulação. Para preservar a integridade física, abortamos a operação e voltamos mais tarde, quando algumas comportas foram desligadas e o local estava ventilado. No retorno, conseguimos chegar até os dois corpos”, afirmou o segundo-sargento. Segundo o bombeiro, a causa das mortes é asfixia por gás.

A prática na região é recorrente, segundo as autoridades. “As pessoas adentram a área da empresa sem autorização. Nessas canalizações que dão acesso à área onde é produzida a matéria bruta e se faz o despejo na represa eles colocam uma espécie de carpete para armazenar os rejeitos. Depois é feita uma lavagem química para retirar o minério e o ouro”, comenta Higor Mourão.

O em.com.br tentou contato com a mineradora, mas até a publicação desta reportagem, ninguém atendeu as ligações.

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FONTE: Estado de Minas.


Barragem2

Desastre ecológico no rastro da tragédia
Após rompimento de barragem que vitimou três operários, córregos da Bacia do Rio das Velhas, na qual é captada 60% da água de BH, já estão contaminados. mais um dique está ameaçado e MP teme acidente que pode agravar o problema

Barragem3O Ribeirão do Silva, afluente do Rio Itabirito, teve o leito tomado pela lama. Temor de comitê de bacia é de que rejeitos cheguem até a estação onde é feita a captação para grande parte da região metropolitana

Depois da tragédia humana, com dois trabalhadores mortos e um que continua desaparecido, já são visíveis os reflexos do desastre ambiental em Itabirito, na Região Central do estado, a 55 quilômetros de Belo Horizonte. O rompimento da barragem B1 da Herculano Mineração já contaminou os ribeirões do Silva e do Eixo ou Mata-porcos, afluentes do Rio Itabirito, que por sua vez deságua no Rio das Velhas, onde é feita a captação de água para parte da Grande BH. Preocupado, o presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Velhas, Marcus Vinícius Polignano, informou ontem que o quadro pode se agravar, comprometendo o abastecimento na capital e municípios da região metropolitana.

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O coordenador das Promotorias de Meio Ambiente de Minas Gerais, Carlos Eduardo Ferreira Pinto, disse ontem que a situação é de “alerta total”, pois a barragem B3 também corre o risco de se romper. “Aí serão maiores as consequências para o Rio das Velhas”, disse. As buscas dos bombeiros pelo operador de retroescavadeira Adilson Aparecido Batista, de 44 anos, continuam esta manhã na área atingida, que corresponde a cerca de 30 campos de futebol, onde a profundidade da camada de lama varia entre 1,5 e 5 metros. 

À tarde, o presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas esteve na mineradora e falou com os diretores sobre a necessidade de reparar o mais rápido possível os danos, para conter o avanço do processo de degradação. O temor maior do ambientalista é de que, ao chegar ao Rio das Velhas, a carga de sedimentos liberada pela barragem e que desceu pelos ribeirões comprometa o funcionamento da estação Bela Fama, responsável pelo abastecimento de água de 40% da população da Grande BH e 60% da capital.

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“Já houve grande contaminação do meio ambiente”, disse Marcus Vinícius Polignano. A um quilômetro e meio da portaria da mineradora, o Ribeirão do Silva exibe os efeitos da carga tóxica que recebeu. As margens estão cobertas de lama, enquanto o filete de água tem um aspecto escuro e espesso. Polignano adverte que em hipótese alguma deve haver captação dessa água. “O leito está com alta turbidez”, disse.

O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) abriu inquérito para apurar responsabilidades. Segundo o promotor de Justiça Carlos Eduardo Ferreira, não houve fatalidade no rompimento da barragem. “Houve intervenção equivocada ou omissão de controle da barragem, pois estamos na época seca e não há qualquer chance de causas naturais”, disse o representante do MP, que estave na sede da mineradora acompanhado da promotora de Itabirito, Vanessa Campolina Rabello, e do coordenador Regional das Promotorias de Justiça do Meio Ambiente das Bacias dos Rios das Velhas e Paraopeba, Mauro Ellovitch. 

Carlos Eduardo Ferreira adiantou ainda que há indícios de que o rompimento da B1 tenha ocorrido devido a uma sobrecarga de rejeitos. Como a barragem B4 foi interditada recentemente, os empreendedores podem ter decido usar a estrutura que acabou arrebentando. “Estamos trabalhando nessa linha de investigação”, adiantou o promotor.

PERIGO IMINENTE O MPMG pediu à empresa que tome medidas emergenciais no sentido de conter a barragem 3, que estaria em risco. “A situação é muito grave. Os diretores relataram não saber o que aconteceu. O certo mesmo é que estamos em alerta total, pois, se houver um novo rompimento, serão muitos os danos para o Rio das Velhas. Não podemos esquecer que morreram duas pessoas e há um desaparecido”, destacou o promotor Carlos Eduardo Ferreira. 

Comandando as buscas que envolveram 23 bombeiros, um cão farejador e equipamentos sofisticados, como um drone e uma espécie de raio-X, o major Wallace Tardim ressaltou a importância de medidas urgentes para conter a barragem B3. “A instabilidade é grande, há risco de novo deslizamento”, confirmou. 

Acompanhado de sua equipe, o coordenador do Núcleo de Emergências Ambientais (NEA) da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), Milton Franco, informou que a empresa terá que apresentar hoje um plano para garantir a estabilidade da barragem 3. Ele afastou a possibilidade de impactos maiores ao Rio das Velhas ou à estação de tratamento de Bela Fama devido ao carreamento de material para o Rio Itabirito. O Estado de Minas entrou em contato com a Copasa, mas não obteve resposta. A Herculano Mineração também foi procurada, mas não se manifestou.

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FONTE: Estado de Minas.


Não faltaram avisos antes da avalanche
Rompimento de barragem que vitimou três operários ocorreu em mineradora que acumula autuações.
Trabalhador previu desastre iminente, mas só depois de mortes houve interdição

Barragem

“Não quero mais trabalhar neste lugar. Se continuar, vocês irão ao meu enterro.” A frase proferida pelo operador de retroescavadeira Adilson Aparecido Batista, de 44 anos, desaparecido ontem depois do rompimento da barragem de rejeitos da mineradora Herculano, que matou outros dois operários em Itabirito, soa como a premonição de um desastre anunciado. O trabalhador relatou seu temor a um supervisor de serviços na véspera do acidente, segundo o irmão da vítima, Valtenil Geraldo Batista, motorista, de 41. Adilson já falara em casa, inclusive, sobre “o constante vazamento de água” no dique B1, que estourou ontem lançando uma avalanche de rejeitos e lama que arrastou três caminhões, duas retroescavadeiras e um carro e espalhou danos ambientais pelo caminho. A empresa, que opera desde 1963, coleciona autuações dos Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e Ministério Público do Trabalho (MPT) por falta de segurança em suas instalações, além de multas por devastação ambiental lavradas pela Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam). Depois do desastre, as atividades da empresa foram suspensas pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM).

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A onda formada pelos rejeitos da Mina Retiro do Sapecado, na cidade localizada a 55 quilômetros de Belo Horizonte, deixou ainda um operário ferido. Dois trabalhadores conseguiram escapar e relataram a socorristas momentos de pânico. Muitos tentaram salvar os colegas usando as próprias mãos para escavar, sem sucesso. O acidente ocorreu por volta das 7h30 quando, segundo o Corpo de Bombeiros, equipes trabalhavam na manutenção da barragem. O resgate – considerado de alto risco, por causa da instabilidade do terreno – durou cerca de 11 horas até ser suspenso, na noite de ontem. Dois corpos foram retirados da lama. O topógrafo Reinaldo da Costa Melo, de 68 anos, funcionário de uma empresa terceirizada, fazia medições próximo à barragem quando foi atingido. Ele foi achado morto, sobre a lama. Cristiano Fernandes da Silva, de 32, que dirigia um caminhão, foi encontrado sem vida na cabine do veículo parcialmente soterrado. Adilson, que operava a retroescavadeira, não foi localizado.
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“A cabine do veículo estava vazia, o que sugere que ele possa ter pulado ao perceber o rompimento da barragem. Vamos continuar os trabalho de buscas até encontrá-lo”, afirmou o tenente-coronel André Gerken, do Comando de Operacional dos Bombeiros, à frente da operação no local. O rompimento ocorreu na barragem B1, que passava por obras de manutenção no momento do acidente. Apesar do histórico de infrações, a situação ambiental da mina era considerada legal, com a última vistoria da Feam realizada em agosto. A empresa também tem relatório, de 2013, que atestava estabilidade da barragem. A perícia técnica para descobrir o que pode ter ocorrido foi iniciada, mas especialistas apontam que a intervenção que estava sendo feita, obras de ampliação recentes ou a falta de manutenção podem ter causado a tragédia. O vice-presidente do Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia de Minas Gerais (Ibape-MG), Clémenceau Chiabi Saliba Júnior, afirma que uma barragem não se rompe de uma hora para outra, sem a interferência de um fator externo. “A estrutura avisa. Estala, trinca, exibe infiltrações, abatimento de solo. Então, se isso ocorreu e não foi visto, pode ter sido a causa do rompimento, mas não acredito, porque as vistorias foram recentes”, avalia. 

PROBLEMAS TRABALHISTAS

Desde 2001 a Mineração Herculano, sediada em Itaúna, no Centro-Oeste mineiro, apresentou sete autuações ambientais que renderam multas de fiscais da Feam. Quatro dessas infrações são consideradas “graves” pela legislação ambiental, sendo duas por “emitir ou lançar efluentes líquidos, gasosos ou resíduos sólidos, causadores de degradação ambiental” e as demais por “contribuir para que um corpo d’água fique em categoria de qualidade inferior à prevista em classificação oficial”. 

A segurança dos trabalhadores também era ameaçada por falhas estruturais que os auditores do Ministério Público do Trabalho e do Ministério do Trabalho e Emprego consideraram gravíssimas. No relatório gerado na última inspeção, realizada em junho, foram 28 autos de infração lavrados. Na vistoria constatou-se que faltava monitoramento adequado dos taludes (paredões) e bancadas (degraus) da mina de minério de ferro. A inspeção verificou ainda não haver um engenheiro de minas responsável que fosse empregado da empresa, o que é exigido por lei. 

As condições de trabalho também geraram diversas autuações, por não haver Programa de Gerenciamento de Riscos, monitoramento da exposição dos trabalhadores a poeira ou proteções das partes móveis de máquinas e equipamentos, além de várias outras infrações relativas às áreas de convivência e conforto dos empregados, como falta ou inadequação de banheiro, vestiário ou chuveiros. O ambiente de trabalho, segundo a avaliação dos fiscais, também submetia funcionários a condições extenuantes, favorecendo erros que comprometem a segurança. Entre essas irregularidades o relatório cita a prorrogação da jornada de trabalho além do permitido, falta de descanso mínimo e descontrole de jornada dos profissionais que compõe o Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho.

A empresa também foi notificada a regularizar problemas detectados pela fiscalização trabalhista, como adequar a sinalização das vias internas da mina e elaborar projetos das instalações elétricas e prediais. Os autos de infração ainda não geraram um processo. Só após a defesa da empresa eles podem gerar multas. 

Cronologia de uma tragédia

Como ocorreu o acidente e o passo a passo do resgate

  7h30     Seis operários trabalhavam na manutenção da barragem de contenção de resíduos B1 da Mina Retiro do Sapecado, da Herculano Mineração, em Itabirito, quando o talude da barragem se rompeu e uma onda de lama e rejeitos de minério varreu o que havia pela frente. Dois trabalhadores conseguiram escapar sem ferimentos e um foi socorrido com fratura exposta na perna. Três funcionários foram atingidos. Dois morreram e um desapareceu.

    8h     Militares do Corpo de Bombeiros começaram o resgate. A instabilidade do terreno e a possibilidade de novas movimentações de terra dificultavam o trabalho. 

11h    O primeiro corpo, o do topógrafo Reinaldo da Costa Melo, de 68 anos, foi encontrado sobre a lama. Ele foi removido de helicóptero.

  15h30    A segunda vítima foi localizada. O operário Cristiano Fernandes Silva, de 32, foi achado morto dentro de um caminhão parcialmente enterrado. O corpo também foi retirado 
de helicóptero. 

    19h    Equipes de bombeiros encerraram as buscas, que devem ser retomadas hoje pela manhã. Uma guarnição de militares passou a 
noite no local

FONTE: Estado de Minas.


 

AMEAçADOS AO NASCER »captação diária será igual à de ‘uma ipatinga’Ambientalistas listam pelo menos oito projetos que põem em xeque a sobrevivência do rio. sistema para alimentar mineroduto até o litoral sugará 718 litros de água por segundo

 

água

%u201CO andirá, ainda vi uns filhotes há uns anos, perto das corredeiras. Mas o surubim, por exemplo, nunca mais vi nenhum, nem com outros pescadores%u201D lucinet wagner dias, de 34 anos, vaqueiro, morador de Ferros



Ferros e Santa Maria de Itabira – Quando filhote, o peixe de escamas prateadas quase chega à superfície do Rio Santo Antônio para se alimentar de insetos. Ao crescer, vive entre as corredeiras, época em que muda radicalmente sua dieta e passa a consumir vegetais, principalmente as algas e o limo que se agarra às rochas dessas passagens. O henochilus wheatlandii, ou andirá, como é conhecido pelos pescadores e lavradores, nadava livre por toda a extensão daquele rio e chegou a ser fisgado até na cidade de Aimorés, no Rio Doce, que é onde o manancial deságua. Soterrados pelo assoreamento que castiga toda a bacia do Rio Doce, esses cursos deixaram de abrigar o andirá, e hoje o único lugar onde o peixe prata existe é no alto Rio Santo Antônio. Mas a degradação ambiental sobe na direção da nascente, e pelo menos oito projetos têm preocupado ambientalistas e biólogos por ameaçar o hábitat do andirá e de outras três espécimes que praticamente só existem por lá.


O Ministério Público (MP) estadual de Minas Gerais conseguiu frear na Justiça a instalação de seis Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) que precisariam barrar o alto Rio Santo Antônio inundando as corredeiras que servem de berçário para o andirá. Mas além de as nascentes do manancial estarem sendo esgotadas por falta de conservação e desmatamentos, dois minerodutos, um deles em instalação e o outro em fase de licenciamento, captarão grandes quantidades de água do Rio Santo Antônio ou que deveria abastecer seu manancial, deixando, segundo previsão de especialistas, uma maior concentração de poluentes na água do rio e podendo até aterrar as formações que abrigam esses peixes. “As propostas de empreendimentos que usarão essas águas terão um certo fator de degradação. Com menos água, as concentrações de esgoto lançadas pelas cidades poderão prejudicar espécimes sensíveis, ainda que haja licenciamento”, afirma o biólogo e mestre em recursos hídricos, Rafael Resck.


Só no projeto do mineroduto da empresa Manabi, por exemplo, a outorga é para sugar 718 litros por segundo do Rio Santo Antônio. A canalização de tubos de aço está sendo licenciada para empurrar 25 milhões de toneladas de minério de ferro por ano das minas de Morro do Pilar, passando por Ferros até chegar a Linhares (ES), seu ponto final. O consumo de água, nesse caso, é superior ao de cidades médias, como Ipatinga, no Vale do Aço, que requer 700 litros por segundo, Americana (SP), onde o consumo é de 622 litros, ou Angra dos Reis (RJ), cujo abastecimento requer 496 litros. “Retirar água para minerodutos nesse cenário de poluição e assoreamento em que estão os rios é incompatível com a preservação dos peixes e de seu hábitat”, considera o biólogo Fábio Vieira, especialista em transposição de peixes e um dos cientistas que mais conhecem o Rio Santo Antônio.


Além do andirá, o surubim do Doce, a pirapitinga e o timburé estão cada vez mais raros no Santo Antônio. “Faz tempo que não pesco nenhum deles. O andirá, ainda vi uns filhotes há uns anos, perto das corredeiras. Mas o surubim, por exemplo, nunca mais vi nenhum, nem com outros pescadores”, afirma o vaqueiro Lucinei Wagner Dias, de 34 anos, que vive e trabalha numa fazenda às margens do Santo Antônio. “A maior população de pirapitinga é a do Rio Santo Antônio. Existem poucos no Rio Doce, é extremamente raro no São Francisco e praticamente extinta no Paraíba do Sul. O timburé é muito raro no Paraíba do Sul e tem população importante no Santo Antônio”, afirma o biólogo Fábio Vieira. Um dos casos mais devastadores foi o do surubim do doce. “Ele era comum e fazia parte da pesca profissional até Aimorés, no Rio Doce, em 1980. Hoje é raríssimo, sendo encontrados mais exemplares no Rio Santo Antônio e um ou outro peixe desses no Rio Manhuaçu ou no Rio Piranga”, conta.

AMOSTRAS Enquanto isso, as cargas de esgoto doméstico, comercial e efluentes industriais continuam a ser despejados ao longo do curso d’água e poderão se tornar mais concentrados se nada for feito. A reportagem do Estado de Minas colheu amostras de água em pontos desde a nascente do Rio Santo Antônio até o distrito de Sete Cachoeiras, em Ferros, para mostrar quanto de esgoto é lançado e dimensionar assim os problemas que poderão surgir no futuro. No primeiro trecho, em Conceição do Mato Dentro, a concentração de coliformes termotolerantes – indicativo de esgoto – chegou a 19.863% acima do limite estabelecido pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama). No segundo, caiu, mas continuou alta: 4.884%.

AMEAçADOS AO NASCER »Morre a mata, morre com ela o curso d`água
Santo Antônio
Verdadeiro santuário, o Rio Santo Antônio corre risco diante da derrubada de árvores, do crescimento da mineração, expansão agrícola e esgoto. Área é hábitat de peixes raros
Onde deveria haver árvores nativas, eucaliptos cercam a nascente do Santo Antônio (LEANDRO COURI/EM/D.A PRESS)
Onde deveria haver árvores nativas, eucaliptos cercam a nascente do Santo Antônio



Conceição do Mato Dentro, Ferros e Santa Maria de Itabira – Entre descargas de dejetos e assoreamento que reduzem a quantidade de água dos mananciais mineiros e suas nascentes, existe um santuário. Dentro da mais degradada bacia hidrográfica de Minas Gerais há águas ainda puras que afloram nas montanhas, percorrem o interior do estado e preservam espécies que não existem em mais lugar nenhum do planeta. Contudo, o esquecimento que manteve saudável e vigoroso o Rio Santo Antônio, um abrigo natural de animais e da Mata Atlântica dentro da Bacia do Rio Doce, está ameaçado. Projetos de mineração, hidrelétricas e a expansão agrícola e urbana não só se apropriam vorazmente da água como introduzem esgoto num hábitat delicado, onde ainda nadam os últimos espécimes de andirá, surubim do doce, pirapitinga e timburé.


Nos cumes da Serra do Espinhaço, em Conceição do Mato Dentro, Região Central de Minas, o ponto exato onde nasce o Rio Santo Antônio não tinha sequer registros fotográficos do Comitê da Bacia Hidrográfica (CBH). Mas logo na nascente, entres as raízes de jacarandás, cedros, angicos e vinháticos, o rio já sofre degradação. A mata ciliar que retém enxurradas que podem soterrar o olho d’água estão sendo derrubadas para dar lugar a pastos e a plantações de eucaliptos, que, pela altura, estão por lá há pelo menos quatro anos. Os 50 metros de raio a serem resguardados pela Lei Florestal brasileira foram atropelados, e a Mata Atlântica que ainda protege o curso d’água vai sendo cortada. No ponto onde a água sai da terra não restam mais do que 8 metros de largura de vegetação. Ainda que ela seja livre de poluentes, cristalina e fresca, o Protocolo de Avaliação Rápida de Diversidade de Hábitats (Pardh), que mede o quanto de um trecho de rio se encontra conservado, aponta que os estragos começam a se manifestar: a nascente do Santo Antônio está 94% preservada.


“Tínhamos o registro das coordenadas geográficas da nascente, mas não se sabia que os produtores rurais estavam cortando a mata e plantando eucaliptos. Por ser uma Área de Preservação Permanente (APP), a nascente não pode ser tocada e a floresta ciliar cortada. Isso será denunciado às autoridades”, disse o secretário de Meio Ambiente de Conceição do Mato Dentro e diretor do CBH do Rio Santo Antônio, Sandro Lage, que acompanhou a reportagem do Estado de Minas ao local. Outros olhos d’água daquela área rural que abastecem o manancial também se encontram desprotegidos, sem cercamento ou fiscalização, à mercê do uso que os proprietários de terra decidirem dar a eles, mesmo que, de acordo com a Constituição, nascentes e cursos d’água sejam propriedade da nação. Tem sido comum eles serem represados, desviados, cercados por plantações e até chiqueiros de porcos.


A aparência pura da água do Rio Santo Antônio não dura muito. Depois de passar pela zona rural de Conceição do Mato Dentro, o Córrego Santo Antônio do Cruzeiro, que dá origem ao manancial, começa a receber cargas de dejetos domésticos e lixo dos distritos e, em seguida, da cidade de Conceição do Mato Dentro. Uma Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) da Copasa foi instalada em outubro para barrar as impurezas, mas a reportagem do EM coletou amostras de água do Rio Santo Antônio depois de passar pela ETE e constatou em exame laboratorial que o nível de coliformes termotolerantes excedia em 19.863% o limite estabelecido pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama). O parâmetro é indicativo de esgoto doméstico lançado nas águas. De acordo com a Copasa, a eficiência média da ETE é de 78%, superior ao exigido pela legislação, que é de 60%.

Desmatamento No ponto em que passa pela ETE, segundo os análise do Pardh, o Rio Santo Antônio conserva apenas 53% de suas condições naturais, devido aos desmatamentos para abertura de pastagens, matadouros e lançamentos de esgoto doméstico e industrial. “O Rio Santo Antônio merece uma preservação especial, pois ainda é um santuário que abriga espécimes que só existem lá. Isso confere ao rio um status de grande importância na conservação da biodiversidade do planeta”, afirma o biólogo e mestre em recursos hídricos Rafael Resck. A situação é mais delicada do que em outros rios, na opinião do especialista, porque, em caso de degradação, o Santo Antônio pode nunca mais voltar a ser o mesmo. “Se as espécies que existem lá morrerem, não haverá como reintroduzi-las ou despoluir o rio para que voltem a povoá-lo, como tem ocorrido em alguma extensão do Rio das Velhas”, compara.

Sem piqueniques e com travessia comprometida

 

As réguas que despontam dos bancos de areia na margem do Rio Santo Antônio mostram que o manancial enfrenta grave seca e dispõe de pouco mais de metro e meio de profundidade ao passar pela cidade de Ferros, na Região Central de Minas Gerais. Do alto da ponte usada na travessia do Centro para o Bairro São Caetano, os habitantes da cidade podem ver que o fundo de terra vermelha não dispõe de vegetação aquática. A abundância de piaus, traíras, curimatãs e outros peixes que eram facilmente fisgados pelo anzol do pecuarista Salvador Madureira Oliveira, de 75 anos, é coisa do passado. “Como é que pode um rio acabar assim? No meu tempo, remava num barco para atravessar as pessoas de um lado para outro. Hoje não tem peixe, o rio está todo sujo e mal dá para atravessar de barco de um lado para o outro”, lamenta.


Em Conceição do Mato Dentro, a servente escolar Marília Elizabeth Silva Alves, de 52 anos, lembra com saudade dos anos em que toda a sua família fazia piqueniques na beira do Rio Santo Antônio. “Era muito alegre. Hoje o rio está triste. A água dele é poluída e ninguém conseguiria comer nada sentindo esse cheiro. Era preciso limpar e dar um jeito de recolher o esgoto”, sugere.

Além do desvio de água, as instalações de grandes empreendimentos próximo à bacia do Rio Santo Antônio trazem incidência maior de esgoto e de lixo com o incremento populacional provocado pela abertura de postos de trabalho. Só em Conceição do Mato Dentro, na Região Central, os projetos minerários atraíram cerca de 10 mil pessoas para o município, que tinha 18 mil habitantes. O mineroduto da Manabi, em Morro do Pilar, tem previsão de gerar 11 mil empregos. Muitos daqueles que vierem terão de ser absorvidos por cidades pequenas, como Ferros, que tem 10.807 habitantes, e Santa Maria de Itabira, com 10.918.

Criar parque, uma saída para salvar

Para preservar as nascentes do Rio Santo Antônio e parte de seu curso, o Comitê da Bacia Hidrográfica e a Prefeitura de Conceição do Mato Dentro estudam a criação de um parque. “Essa é uma região cuja vocação é de preservação ambiental. Não há grandes interesses econômicos e, por isso, não haveria conflitos para implantar um parque. Com isso, o benefício para o rio que é a redenção do Rio Doce seria garantido”, disse o secretário de Meio Ambiente da cidade, Sandro Lage.


De acordo com a Prefeitura de Ferros, um projeto no valor de R$ 14 milhões está sendo pleiteado junto à Fundação Nacional de Saúde (Funasa) para viabilizar sistema de captação e duas estações de tratamento. A prefeitura avalia que, “em função do volume de água, o rio ainda é considerado saudável. A grande preocupação, atualmente, é quanto aos efeitos da captação de água da Bacia do Rio Santo Antônio por empreendimentos da mineração. Isto deverá reduzir significativamente o volume do rio no perímetro urbano, especialmente em épocas de seca, tornando a falta de tratamento de esgoto um grave problema de saúde pública”.


A Manabi afirma que a autorização para o uso da água foi concedida após análise de documentação técnica que inclui os estudos solicitados pelo órgão ambiental. “As informações são cruzadas com todas as outorgas já concedidas e também com aquelas ainda em fase de análise, relativas a outros usuários. Após esta avaliação, é estabelecido o limite máximo de água disponível no ponto de captação solicitado e, então, concedida a outorga”, informou a mineradora por meio de sua assessoria de imprensa.

A empresa diz que mantém ações ambientais para reduzir os impactos das suas atividades, como o Plano de Conservação da Biodiversidade Faunística, em que estão previstos os Programas de Monitoramento e Pesquisa da Fauna Aquática e de Monitoramento da Biota Aquática. “Atualmente, estão sendo executados os monitoramentos nos pontos outorgados (futuras captações) do Rio Santo Antônio e Rio Preto. A Manabi está elaborando um Plano Estratégico para Recursos Hídricos, cujo principal objetivo é estimular ações que aumentem a disponibilidade de água, por meio de planos de investimentos socioambientais técnicos e economicamente viáveis, pautados pelo diálogo permanente com as comunidades.”

VEJA AQUI A PRIMEIRA PARTE DA REPORTAGEM (com links para as demais)!

FONTE: Estado de Minas.


AMEAÇADOS AO NASCER Sufocado por minério, esgoto e assoreamentoRio Piracicaba, importante afluente da bacia do Rio Doce e no qual a população pescava mandis e cascudos, é retrato do descaso do poder público com os mananciais

 

 

Há trechos em que é visível o dano causado pelas agressões ao curso d%u2019água: neste, o Rio Piracicaba tem apenas 37% de suas condições naturais
Há trechos em que é visível o dano causado pelas agressões ao curso d%u2019água: neste, o Rio Piracicaba tem apenas 37% de suas condições naturais


Ouro Preto, Mariana, João Monlevade, Nova Era e Rio Piracicaba – O lugar onde o Rio Piracicaba nasce ninguém pode ver sem autorização, já que fica dentro de terreno pertencente à mineradora Vale, em Ouro Preto, na Região Central de Minas. Mas o rio que corre depois das áreas de exploração de minério de ferro da companhia e da Samarco, 12 quilômetros depois de brotar na Serra do Caraça, já está em condições degradadas que o acompanham no restante do curso. Considerado um dos mais agredidos da Bacia do Rio Doce, que é também uma das piores de Minas Gerais, o Piracicaba deixa o território das mineradoras em um trecho assoreado e já apresentando contaminação por esgoto e atividade minerária.

Teste laboratorial de amostra recolhida pela equipe do Estado de Minas logo depois que o Rio Piracicaba deixa a região das minas de ferro revela que as águas concentram 161% de coliformes fecais acima do limite estabelecido pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), apesar de não haver nenhum centro urbano ou povoamento no caminho. Análise do Protocolo de Avaliação Rápida da Diversidade de Habitats (Pardh) – que mede o percentual de conservação de um trecho de um rio, em comparação com seu estado natural – mostrou que o mesmo local, que se encontra antes da ponte sobre a Rodovia MG-129, só preserva 70% de suas condições naturais. 

Nos laboratórios do Instituto Mineiro de Gestão de Águas (Igam), amostras colhidas no segundo semestre de 2013 em um ponto três quilômetros abaixo, antes do distrito de Santa Rita Durão, em Mariana, apresentou poluição por sulfetos 1.400% acima do limite do Conama, 112% superior para manganês e 104% a mais para sólidos em suspensão. As causas assinaladas pelos técnicos do Igam foram “atividade minerária, assoreamento e carga difusa”.

A altíssima presença de sulfetos interfere na acidez da água e causa colapso em algumas funções celulares. Pode levar peixes e outros organismos aquáticos à morte e provocar intoxicação em seres humanos, de acordo com a Fundação Nacional de Saúde (Funasa).

Adiante, o Rio Piracicaba segue sendo degradado até sua foz no Rio Doce. Em João Monlevade e em Nova Era, pouco mais de 90 quilômetros depois que sai da região das minas de ferro e entra na área siderúrgica, o despejo de esgoto, lixo, resíduos de estradas e ferrovias e o assoreamento provocado por desmatamentos e erosões nas margens deixaram o rio com apenas 37% de suas condições naturais, conforme o Pardh. Em Rio Piracicaba, cidade que recebeu o nome em homenagem ao manancial, a equipe do EM coletou mais uma amostra, cujo resultado não causou surpresa ao indicar que naquele trecho a presença dos coliformes termotolerantes chega a ser 9.208% maior do o tolerável.

Mas nem sempre foi assim. De acordo com o montador de estruturas Edson Ribeiro, de 39 anos, que cresceu às margens do rio, a água não era turva e havia muitos peixes. “A gente nadava neste rio. Parentes meus que moravam em São Paulo traziam os meninos para conhecer a roça, tomar banho de rio, pescar. Agora só doido entra nesta água”, disse. Por causa do assoreamento, a profundidade do rio diminuiu bastante e caiu também a oferta de pescado. “A gente pegava traíras, mandis, cascudos, lambaris. Mas hoje você não acha nada. O rio bate no seu joelho e não tem mais peixe. É triste não poder mostrar para meus filhos como era na minha época”, lamenta.

VIDA AMEAÇADA O assoreamento do Piracicaba se repete ao longo da Bacia do Rio Doce, o que foi determinante para extinguir as corredeiras e fundos cavernosos que abrigavam espécies raras e ameaçadas de extinção, como o surubim do Rio Doce, que não é mais encontrado em quase nenhum curso d’água. “As atividades agrícolas e outros meios de desmatamento removeram a mata ciliar e a vegetação original de sua bacia de drenagem em longos trechos. Esse processo de assoreamento é potencializado pela mineração e culmina na redução acelerada da quantidade de água desses mananciais”, aponta o biólogo e mestre em recursos hídricos Rafael Resck.

“A gente pegava traíras, mandis, cascudos, lambaris. Mas hoje você não acha nada. O rio bate no seu joelho e não tem mais peixe. É triste não poder mostrar para meus filhos como era na minha época” Edson Ribeiro, de 39 anos, da cidade de Rio Piracicaba
Empresas dizem cuidar de resíduos e prefeituras, de dejetos

A mineradora Vale afirma que não permite o acesso à nascente do Rio Piracicaba por se tratar de uma área de preservação permanente, e que isso evita a abertura de trilhas e impactos gerados por visitantes. Sobre os poluentes encontrados na água e os que o Igam considera provenientes de atividade minerária, a Vale informou que suas instalações “possuem estações de tratamento de esgoto, oleosos, efluentes industriais e barragens de contenção de sedimentos, a fim de garantir a qualidade das águas antes de retornarem ao meio ambiente”. Outra mineradora que atua na bacia do Piracicaba, a Samarco, garante que 100% do seu esgoto é tratado. “A Samarco trata todos os efluentes industriais resultantes do processo produtivo, de acordo com as características e exigências de cada um. A empresa também recircula cerca de 90% de toda a água envolvida no processo industrial.” Para evitar o carreamento de terra e minério pela chuva para o rio, a mineradora diz contar com diques de contenção. “A água fica retida por um tempo, para que os sólidos decantem e somente a parte líquida alcance o curso d’água.” 


Entre as prefeituras, a de João Monlevade garante que coleta 99% do esgoto gerado na cidade, mas trata apenas 1%. O esgoto lançado no Rio Piracicaba vem dos bairros Carneirinhos, Cruzeiro Celeste, Jacuí, Tietê, Santa Cruz e de outros dois subsistemas. O município tem uma estação de tratamento de esgoto (ETE), que está inoperante e outra sendo instalada. Já a Prefeitura de Nova Era afirma que estrutura um plano de saneamento, já que não tem ETE e por isso, os dejetos acabam escoados para o rio.

 

 

AMEAÇADOS AO NASCER Poluído em toda a sua extensãoRio Doce, que começa a correr quase morto, tem a bacia mais degradada de Minas. lançamentos de Esgotos domésticos e detritos industriais são os grandes assassinos dos cursos d%u2019água no estado

 

Água do Doce banha a propriedade de Armando Guedes e é mais perigosa que a cascavel achada no quintal
Água do Doce banha a propriedade de Armando Guedes e é mais perigosa que a cascavel achada no quintal



Rio Doce, Ponte Nova e  Viçosa – A cobra cascavel que mede o comprimento dos braços abertos de um homem, mesmo morta a foiçadas, ainda deixava a roda de lavradores com medo. “Este bicho está aparecendo por toda parte. Se não ficar velhaco, leva dentada e tem de correr para o hospital. Dois compadres já foram mordidos”, conta um dos produtores rurais, Armando Guedes, de 55 anos. A propriedade dele e de seus parentes fica exatamente na confluência dos rios do Carmo e Piranga, onde se forma o Rio Doce, que dá nome ao município. Com o réptil venenoso dependurado num pau, Armando contava sorridente os vários usos dados para a água do manancial que corre atrás de sua plantação de café. “A gente usa para beber, banhar, molhar as plantas, pescar peixes e tem até uma piscina.” Mas a água que ele e muitos outros habitantes das roças da região consomem representa mais perigo do que as serpentes, já que o Rio Doce nasce extremamente poluído. Uma sina que acompanha todo seu curso, até o Espírito Santo, e faz de sua bacia a mais degradada de Minas Gerais.

A cor da água no local não deixa o perigo transparecer, mas análise laboratorial de amostra coletada pela equipe do Estado de Minas atestou que o Doce já nasce com 5.172% de coliformes termotolerantes acima do limite estabelecido pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama). “Nesse nível de poluição não apenas as águas são impróprias para consumo, como os peixes também devem apresentar contaminação. É uma situação gravíssima, de saúde pública”, considera o biólogo e mestre em recursos hídricos Rafael Resck, especialista que orientou a reportagem do EM na realização de coletas e estudos científicos para mostrar a saúde das nascentes e dos rios.

Os responsáveis pela altíssima contaminação logo em sua gênese são os esgotos domésticos, de comércios e indústrias que são despejados diretamente nas águas dos rios que o formam, tanto o Rio do Carmo, que vem de Ouro Preto, quanto o Rio Piranga, que se origina no município de Ressaquinha. Na cidade de Ponte Nova, o último centro antes da foz do Rio Piranga, a degradação se dá a olhos vistos. O manancial passa no meio da cidade e recebe de grandes manilhas e canais todos os dejetos e efluentes lá descartados, formando cachoeiras e cascatas de água negra ou esverdeada pelos poluentes. “Isso é uma vergonha e não adianta passar o tempo, porque nada é feito. A cidade não precisava conviver com um esgoto a céu aberto como este”, critica o aposentado Ari Souza, de 70 anos, que faz caminhadas no trajeto canalizado e concretado, em meio ao mau cheiro, que ele diz incomodar bastante.

De acordo com exames feitos pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) no terceiro semestre do ano passado, o Rio Piranga deixa Ponte Nova com um nível de contaminação por coliformes 1.200% acima do máximo aceitável pela legislação do Conama. As amostras indicaram ainda que a quantidade de ferro dissolvida nas águas se mostrava 23% superior à tolerância. No caso dos coliformes, o Igam aponta os lançamentos de esgoto como causa. Já o ferro dissolvido, que pode propiciar desenvolvimento de bactérias nocivas e reduzir a potabilidade da água, é resultado da poluição de mineradoras. O Vale do Rio Doce é rico em ferro e, por isso, concentra muitas mineradoras e siderúrgicas. Apenas dois quilômetros depois da formação do rio as margens do manancial apresentam depósitos de minério pulverizado que brilham com o sol até mesmo debaixo d’água.

COMPROMETIMENTO Todos os processos exploratórios poderiam ser controlados com comprometimento e investimentos do poder público local e estadual e de empresas que exploram os recursos naturais, avalia o professor de hidrologia florestal e manejo de bacias hidrográficas da Universidade Federal de Viçosa (UFV) Herly Carlos Teixeira Dias. “Há atividades mineradoras que seguem projetos com impactos controláveis e com planejamento de recuperação de área degradada. Mas há também empreendimentos de mineração descontrolada e uso do solo descontrolado. Não se está conseguindo avançar o quanto é preciso para preservar mananciais como o Rio Doce”, afirma.

A situação é ruim muito além da nascente. Nos exames realizados com amostras colhidas pelo Igam no terceiro semestre do ano passado, foi comprovado que em Ipatinga, os lançamentos de esgoto provocam contaminação por coliformes 40% maiores que a tolerância do Conama. O manganês total ultrapassou em 52% o limite. À frente, entre Ipaba e Perpétuo Socorro, os esgotos e os efluentes industriais da atividade de celulose fazem os níveis de cianeto livre ultrapassar em 20% o tolerável, representando perigo de envenenamento sobretudo da fauna, já que bloqueia o transporte de oxigênio no metabolismo. Em Governador Valadares, cidade de 275 mil habitantes, a concentração de coliformes chega a ser 230% superior ao máximo ambientalmente aceitável.

Barrenta, poluída e turva: assim é a formação do Rio Doce, no encontro dos rios Piranga e Carmo
Barrenta, poluída e turva: assim é a formação do Rio Doce, no encontro dos rios Piranga e Carmo

 

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FONTE: Estado de Minas.

 



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