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Obelisco que já esteve na Savassi e completará 90 anos de Praça Sete em 2014 foi esculpido em antiga pedreira de Betim. Cidade chegou a reivindicar volta do Pirulito

Trabalhadores de pedreira de Betim esculpem obelisco: foi preciso construir trecho ferroviário para transportá-lo
Pirulito

Ele já foi impiedosamente pichado, teve gente acorrentada à sua base em ato de protesto, ganhou camisinha gigante em campanha contra a Aids, testemunhou dezenas de manifestações políticas e sempre foi uma referência importante para os belo-horizontinos. E, sob chuva ou sol, resiste como um dos símbolos da cidade. O Pirulito da Praça Sete, marco do “coração” da capital dos mineiros, tem uma história quase centenária – e recheada de acontecimentos memoráveis – que começou em Betim, quando o município ainda se chamava Capela Nova de Betim. No início da década de 1920, o obelisco projetado pelo arquiteto Antonio Rego e executado pela empresa do engenheiro Antônio Gonçalves Gravatá, numa pedreira da cidade vizinha, foi esculpido por ideia do então presidente do estado, Raul Soares. O motivo era a comemoração do centenário da independência do Brasil.

Desde 7 de setembro de 1922, quando foi lançada a pedra fundamental – a inauguração só ocorreu dois anos depois, em 7 de setembro –, o obelisco com 13,57m de altura teve trajetória atribulada. Devido às proporções da peça de cantaria, dividida em blocos, foi necessária a construção de um trecho ferroviário específico para o transporte. Toda a história pode ser conferida numa exposição permanente montada no quarteirão fechado da Rua Rio de Janeiro, entre Avenida Afonso Pena e Rua Tupinambás, no Centro, com fotos da Coleção Hélio Gravatá, pertencente ao Museu Histórico Abílio Barreto (MhAB), textos, desenhos e curiosidades.

Segundo pesquisa de Luiz Henrique Garcia, doutor em história e professor de museologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o Pirulito foi retirado da Praça Sete em 1962 pelo prefeito Amintas de Barros (de 1959 a 1963), para ficar abandonado num lote ao lado do Museu Histórico da Cidade, atual MhAB, na Cidade Jardim, Região Centro-Sul de BH. Com a Praça Sete livre para o crescente trânsito de veículos, foi erguido ali um monumento executado por H. Leão Veloso com o busto de importantes personalidades da nova capital: Aarão Reis, Afonso Pena, Augusto de Lima e Bias Fortes. A homenagem ao quarteto ilustre ficou no local de 1963 a 1970, sendo levada para o Parque Municipal Américo René Giannetti.

Em 1963, o Pirulito foi transferido para a Praça Diogo de Vasconcelos, na Savassi. Enquanto isso, de acordo com o professor Luiz Henrique, a Praça Sete se tornava “uma área asfaltada, sem qualquer marco de referência, ou, quando muito, uma guarita da Polícia Militar”.

O pirulito, na Savassi, 1970.
Pirulito Savassi

Somente em 1980, “depois de grande mobilização popular e reivindicação”, faz questão de ressaltar, o obelisco retornou ao seu ponto de origem. “É difícil falar que o Pirulito tem um significado diferente, pois cada grupo o enxerga de um jeito”, diz o professor. “Na década de 1930, a marca visual era mais nítida, pois havia poucos prédios altos na Região Central e ele se destacava mais”, afirma Garcia.

O comerciário Manoel Reis diz que a Praça Sete é o lugar do monumento: “um símbolo de BH”
Pirulito2

Há exatos 40 anos trabalhando numa loja de calçados na Avenida Afonso Pena, na esquina com a Rua Rio de Janeiro, o atual gerente do estabelecimento, Manoel Reis, de 58 anos, assistiu às mudanças no espaço público “Quando era criança e passava por aqui em direção à escola, lembro dos bustos de Aarão Reis e outras figuras importantes, instalados num jardim”, conta Manoel, que se alegrou com a volta do monumento, em 1980. “Gosto muito da história de BH e acho que o lugar do obelisco é aqui mesmo, pois é um símbolo da capital. Além de tudo, se foi feito para o centenário da independência deve ficar na Praça Sete de Setembro”, defende. Ele lembra importantes manifestações políticas na praça e outras de triste memória, como o protesto do perueiros na década de 1990 contra a proibição do transporte clandestino pela prefeitura. “Já vi de tudo um pouco aqui”, diz bem-humorado. Ele lamenta, no entanto, os atos de vandalismo e pede mais respeito.

Transporte

O Pirulito voltou em 1980 à Praça Sete, seu ponto de origem, depois de mobilização popular
Pirulito3

Segundo uma série de reportagens – A doce guerra do pirulito – publicada em 1976 no extinto Diário da Tarde, as autoridades de Betim chegaram a pedir o monumento de volta, tal o esquecimento a que foi relegado o obelisco naqueles tempos. As matérias contavam a saga que foi a produção da peça em Betim. “Gravatá não era homem de recusar serviços e aceitou a empreitada dada pelo governo mineiro e colocou uma grande turma para trabalhar na obra, sob o comando de Joaquim Ferreira. A pedra foi tirada inteiriça com uso de fogo elétrico e depois entregue aos talhadores, um dos quais é o senhor Divino Ferreira”. E mais: “Muita gente sabe que ele foi transportado de Betim para Belo Horizonte pela empresa Emílio Señor, através do leito da Estrada de Ferro Central do Brasil. Para chegar até a Praça Sete, foi preciso construir um lastro ferroviário até o local, pois na época não havia caminhões e guindastes de grande porte em Belo Horizonte”.

Outra pesquisa mostra que foi montado um esquema especial, à noite, para não interferir no tráfego de veículos: as enormes pedras de cantaria foram transportadas de trem até a Lagoinha e depois de bonde até seu destino final. Em 1977, o Pirulito foi tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha), como monumento comemorativo do centenário da independência do Brasil. Em 1994, ficou mais protegido, já que o Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte tombou o conjunto urbano da Avenida Afonso Pena, incluindo a Praça Sete.

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Agulha de sete metros

De acordo com o Iepha/MG, o Pirulito, chamado assim devido ao seu formato, tem uma base clássica, em forma de pirâmide, e mostra uma placa de bronze do escultor João Amadeu Mucchiut com inscrição comemorativa. É formado por uma agulha de sete metros de altura, apoiada sobre pedestal quadrangular ornamentado por um poste em cada uma de suas quatro arestas. O pedestal é composto por 28 peças de cantaria e dividido em três fiadas: a primeira, com 12 pedras, forma a base quadrada com 7,60m de lado e 70cm de altura; a segunda, com oito pedras, tem 4,99m de base e 53cm de altura; e a terceira, desenhada em curva, tem 2,40m de altura e 1,85m de largura. Em 1997, o obelisco foi restaurado, retomando seu tamanho original de 13,57m (nos anos 1960, quando foi retirado da Praça Sete, teve oito centímetros da ponta quebrados), sendo usado na recuperação granito cinza de Sabará.

LINHA DO TEMPO

1894 –Na planta original de BH, a Praça Sete tem o nome de Praça 14 de Outubro, data da criação da Comissão de Estudos das Localidades Indicadas para a Nova Capital

1922 –Praça recebe o nome de Sete de Setembro em homenagem ao centenário da Independência. Em 7 de setembro, é lançada a pedra fundamental do obelisco esculpido na antiga Pedreira Gravatá, em Betim

1924 – Inaugurado em 7 de setembro o Pirulito da Praça Sete. A ideia de instalar o monumento foi do então presidente de Minas, Raul Soares

1962 –Durante a administração do prefeito Amintas de Barros, obelisco é retirado da Praça Sete, ficando abandonado num lote ao lado do Museu Histórico da Cidade, atual Museu Histórico Abílio Barreto

1963 – Obelisco é transferido para a Praça Diogo de Vasconcelos, na Savassi, e reinaugurado em 12 dezembro, data do aniversário de BH

1977 – Monumento é tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha)

1980 – Pirulito retorna à Praça Sete, no Centro, depois de mobilização popular

1994 –Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte tomba o conjunto urbano da Avenida Afonso Pena, incluindo a Praça Sete

FONTE: Estado de Minas.



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