Antequam noveris, a laudando et vituperando abstine. Tutum silentium praemium.

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Pescador conta história dos jacarés da Pampulha
Morador das barrancas do Rio São Francisco e um dos mais antigos integrantes da colônia de Três Marias garante: foi ele quem soltou os répteis, ainda filhotes, na represa de BH

Norberto pesca há 54 anos no São Francisco e diz que jacarezinhos soltos na lagoa vieram do Rio Araguaia (Beto Novaes/EM/D.A Press)
Discretos e arredios, avistados quase sempre quando tomam banho de sol, os jacarés que vivem na Lagoa da Pampulha e despertam a curiosidade dos frequentadores do cartão-postal de Belo Horizonte nunca tiveram sua origem determinada com exatidão. Pelo menos até agora, quando surge uma história que poderia explicar a presença dos insólitos personagens em um lago urbano artificial encravado no meio da terceira maior metrópole do Sudeste brasileiro. O enredo vem das palavras de um dos personagens que integram o imaginário das barrancas do Rio São Francisco, conhecido no Brasil e no exterior por defender as causas do Velho Chico.

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Norberto dos Santos, de 65 anos, um dos mais antigos pescadores da colônia de Três Marias, admitiu ter introduzido os répteis, ainda filhotes, na lagoa da capital. Conhecido pelo apelido carinhoso de “Velho do Rio”, ele sobrevive há 54 anos fisgando peixes no Rio da Integração Nacional. Sem qualquer constrangimento, o homem simples e de fala mansa garante que essa não é uma história de pescador: ele conta que capturou 25 pequenos jacarés em uma pescaria no Rio Araguaia, em Mato Grosso, em 1968, e que depois soltou os bichos na Pampulha. “Até hoje, quando leio nos jornais ou vejo na TV que um dos jacarés apareceu, penso assim: olha lá um dos meus”, diverte-se.
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Em sua casa na beira do São Francisco, no município de São Gonçalo do Rio Abaixo, vizinho a Três Marias, na Região Central de Minas, o pescador lembra da história com um sorriso largo, sentado em um banco de madeira ao lado as netas. “Tudo começou quando eu tinha 18 anos. O preço do peixe estava em baixa e um amigo de pescaria me chamou para trabalhar em Belo Horizonte, na Casa Arthur Haas, em frente à Igreja da Boa Viagem”, lembra. Porém, como ele chegou um dia depois do combinado, perdeu o emprego e teve de trabalhar em uma marcenaria. “Sabe como é, né? Pescador é muito folgado. Perdi um emprego, mas arranjei outro, ali perto da Avenida Alfredo Balena (Região Hospitalar). Mas gostava mesmo era de pescar e logo a gente organizou uma pescaria para o Araguaia.”
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Era então um Brasil bem diferente, em que ainda não havia leis ambientais rígidas ou consciência tão difundida. “A gente ia armado. Da viagem, eu trouxe também 20 pacas conservadas na gordura, além de muitos peixes. A polícia não ligava para isso”, afirma. Foi em uma lagoa marginal que estava secando, e que por isso poderia ter muitos peixes fáceis de fisgar, que ele encontrou os jacarés. “Quando chegamos à lagoa, os jacarés grandes fugiram correndo e ficou aquele tanto de jacarezinhos nadando no meio dos nossos pés. Resolvi pegar alguns e levar para a casa do meu patrão, no Bairro Santa Efigênia, em BH”, conta Norberto.

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O presente agradou ao chefe, que despejou os pequenos répteis na piscina que tinha no quintal. Mas o tempo passou e criar os animais se provou mais difícil do que parecia. “A gente jogava peixe, pedaços de carne e eles não comiam nada. O patrão então ficou com dó, achando que iam todos morrer, e foi então que sugeri soltar os bichos na Pampulha. A Avenida Pedro II era de uma pista só naquela época. Fomos por lá, paramos o carro e despejamos os jacarés na lagoa”, lembra.
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PAPO AMARELO De acordo com a Prefeitura de Belo Horizonte, os cerca de 20 crocodilianos que hoje nadam no cartão-postal à sombra das edificações de Oscar Niemeyer são da espécie jacaré-do-papo-amarelo (Caiman latirostris), muito comum em Minas e  encontrada no país do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, com populações também em outros países sul-americanos, como Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai. Em BH, nenhum registro de ataques a humanos ou a outros animais foi registrado, apesar dos boatos de que as capivaras seriam o alimento predileto dos bichos.

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Na natureza isso não ocorre, de acordo com o biólogo responsável pelo Setor de Répteis e Anfíbios da Fundação Zoobotânica da capital, Luís Eduardo Coura. “Não que um jacaré adulto não seja capaz de comer um filhote de capivara, mas essa não é a dieta normal. As histórias de ataques a cães também são improváveis. Mas é certo que os jacarés estão conseguindo boa fonte de alimentação para se desenvolver. Acredito que a alimentação deles possa ser sobretudo dos peixes da lagoa”, disse.
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Na Pampulha, há quem já tenha encontrado com um dos jacarés e até quem duvide de sua existência. “Vi um deles nos jardins do Museu de Arte da Pampulha, há um ano, enquanto corria pela orla. Uma porção de gente estava perto para ver e o animal nem se mexeu. Ficou só tomando sol. Não acho que seja perigoso e acredito que possa ter sido, sim, solto por alguém que o criava”, afirma o médico-veterinário Leandro Geraldo da Silva, de 37 anos.

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O aposentado Sebastião Ferreira dos Santos, de 68, diz ter visto vários, inclusive um maior, que considera ser “o pai de todos”. “Vi o mais velho aqui (perto da Associação Atlética Banco do Brasil), metade do corpo para dentro da lagoa e metade para fora. Não são animais que chegam perto nem que trazem perigo, desde que você fique fora da água”, diz, cauteloso. O médico Thiago Franco, de 36, sempre passeia pela orla com seus cães e nunca viu um dos répteis. “Não duvido que existam, porque muita gente diz ter visto. Mas fico na dúvida, por causa desse aumento da população de capivaras. Será que eles não as comem?”, indaga.

Arredios, animais são vistos tomando sol em diferentes pontos da represa. Nunca foram registrados ataques (renato weil/EM/D.A Press - 14/11/06)

 

Muitas teorias sem DNA
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A história do pescador Norberto dos Santos não é a única que reclama a “paternidade” dos jacarés da Lagoa da Pampulha. Como seu aparecimento já se tornou lenda urbana na capital mineira, ao longo do tempo várias teorias  surgiram nos jornais e recentemente em blogs e redes sociais. Uma das mais difundidas é a de que ocorreu uma tempestade na capital mineira e o Córrego São José, que passa dentro do Zoológico, teria inundado recintos de animais, carregando jacarés para dentro da Pampulha, onde o manancial desemboca. Essa suposição, no entanto, é considerada fantasiosa pelo biólogo responsável pelo Setor de Répteis e Anfíbios da Fundação Zoobotânica de Belo Horizonte, Luís Eduardo Coura. “Mesmo no início, quando o zoológico não era uma fundação e tinha menos estrutura do que hoje, nunca foi registrada fuga de qualquer espécime, por isso dá para dizer que os jacarés da Pampulha não vieram de dentro do zoo”, afirma.
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Outra teoria é de que um biólogo teria trazido ovos de jacaré para uma estufa no Horto, na Região Leste, e que esses teriam eclodido e os animais, fugido para um pequeno lago. Com as chuvas, teriam escapado para os córregos da Bacia da Pampulha e acabado na lagoa. “As teorias de que os jacarés tenham sido introduzidos na Pampulha podem ter fundamento, sim, mas como se trata de uma espécie comum em Minas Gerais, pode muito bem ter ocorrido de os animais terem descido por riachos e córregos até chegar à Pampulha, onde encontraram um ambiente favorável para se instalar”, disse Coura.
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De acordo com o Ibama, os jacarés da Pampulha não são monitorados, por serem considerados animais silvestres em ambiente natural. Portanto, não há qualquer investigação sobre sua origem ou por quem, porventura, os tenha levado para a lagoa. Ainda de acordo com o órgão, o instituto não recebeu nenhum pedido da Prefeitura de BH para manejo dos jacarés.
 (Ana Cláudia Parreiras de Freitas/Divulgação - 1/1/04)

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O que diz a lei.
O ato de transportar um animal da fauna silvestre entre estados ou cidades é considerado crime ambiental, assim como pescar ou caçar esse exemplar, de acordo com o artigo 29 da Lei 9.605, de 1998, a Lei dos Crimes Ambientais. A pena prevista é de seis meses a um ano de prisão e multa para quem matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente, ou em desacordo com a permissão obtida. Incorre nas mesmas penas quem modifica, danifica ou destrói ninho, abrigo ou criadouro natural, vende, expõe à venda, exporta ou adquire, guarda, tem em cativeiro ou depósito, usa ou transporta ovos, larvas ou espécimes, bem como produtos e objetos dela originários, provenientes de criadouros não autorizados ou sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente.
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Jacaré-do-papo-amarelo

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Nome científico    Caiman latirostris
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Expectativa de vida    50 anos
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DIETA    Carnívora (insetos, peixes, crustáceos, pássaros e pequenos mamíferos)
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Hábitat    Florestas tropicais em lagoas, lagos e rios.
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Curiosidade    O nome da espécie vem da coloração amarelada que o papo dos machos adquire na época do acasalamento
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Estado da espécie    Pouco ameaçada (esteve sob risco até 2002, ano em que a criação para retirada de couro e carne permitiu que o número 
de espécimes selvagens aumentasse)

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FONTE: Estado de Minas.


 

Bairro Castelo, em BH, é hoje muito valorizado e conta com grandes empreendimentos
Bairro na Região da Pampulha foi construído com o loteamento de duas principais fazendas da capital

 (Marcos Vieira/EM/D.A Press)

 

Considerado um “adolescente” em relação aos bairros tradicionais de Belo Horizonte, o Castelo foi construído devido à união de duas grandes fazendas, na década de 1970: a Fazenda Serra, que pertencia à família do coronel Francisco Menezes Filho, e a Fazenda São José, do casal Alípio Ferreira de Mello e Ursulina de Andrade Mello. À época, os herdeiros Menezes receberam uma proposta da Construtora Cinova, primeira loteadora de Belo Horizonte, e resolveram vender suas terras para que os lotes fossem construídos. 
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De acordo com o empresário Lúcio Souza Assunção, antigo diretor da Cinova, foi feito todo o processo de expansão urbana do bairro, com água, luz e saneamento básico. “Foram feitos aproximadamente 1,3 mil lotes. No começo, demorou um pouco, mas, como tínhamos experiência com loteamento, por termos urbanizado o Cidade Nova, tudo ocorreu como planejamos”, destaca. Assunção explica ainda que as ruas do bairro permaneceram da mesma forma que eram antes.
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Foram acrescentadas apenas algumas avenidas de grande importância, como a Tancredo Neves, que dá continuação à Pedro II. “O que modificou muito foi o uso dos lotes. No início, eram construídas apenas casas, depois começaram a erguer os prédios e edifícios, e, posteriormente, os conjuntos de prédios começaram a tomar conta da região.”
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Localizado na Região da Pampulha, o Castelo é apontado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas Administrativas e Contábeis da Universidade Federal de Minas Gerais (Fundação Ipead/UFMG) como um bairro de alto padrão. A classificação foi feita pelo fato de a renda média mensal dos domicílios ser igual ou maior a 8,5 salários mínimos e menor do que 14,5 salários mínimos.
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Por ser um bairro residencial, existem vários comércios no Castelo que abastecem os moradores da região, como padarias, farmácias, restaurantes, lojas, escolas e posto de gasolina. Os residentes que preferem utilizar o ônibus como transporte público contam com várias linhas para se deslocar do bairro para as principais regiões da cidade. 
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Bairro da Região da Pampulha tem imóveis de alto padrão e comércio diversificado, além do Parque Ursulina de Andrade Mello (Marcos Vieira/EM/D.A Press)
Bairro da Região da Pampulha tem imóveis de alto padrão e comércio diversificado, além do Parque Ursulina de Andrade Mello
.O diretor da Prolar Netimóveis, Vinícius Araújo, afirma que o Castelo está bastante valorizado, por ser tranquilo e estar próximo de um dos principais cartões-postais de Belo Horizonte, a Lagoa da Pampulha. “Antigamente, quem vinha para o bairro eram aqueles que compravam seus primeiros imóveis. Normalmente, casais que estavam construindo uma família ou, até mesmo, solteiros que começaram a se virar sozinhos. Esse perfil de moradores era devido aos baixos custos. Hoje, temos condomínios de alto luxo e classe média. Quem está aqui não deseja sair de forma alguma”, explica o gestor da imobiliária, que tem sede no Castelo. 
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Ainda segundo Araújo, os preços por metro quadrado na região variam. Se for um padrão médio, com até duas vagas de garagem, varia entre R$ 6 mil e R$ 7 mil o metro quadrado (m²). Caso seja um estabelecimento mais luxuoso, o valor aumenta entre R$ 7,5 mil e R$ 8 mil o m². Já os lotes podem ser encontrados por R$ 5 mil o m².
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TRANQUILIDADE 
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Como o bairro não tem muitas opções de atrações noturnas, é conhecido pela tranquilidade e segurança. No local, moradores contam com o sistema de prevenção contra a criminalidade criado pela 9ª Companhia Especial do 34º Batalhão da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG). Para se divertir, os moradores precisam se deslocar para os bairros próximos. “Bem perto do Castelo tem a Avenida Fleming, conhecida por ser uma via gastronômica da região. Mesmo sendo no Bairro Ouro Preto, lá é o ponto de encontro para quem quer se divertir durante a noite”, destaca. 
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 (Marcos Vieira/EM/D.A Press)
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O bairro conta ainda com o Parque Municipal Ursulina de Andrade Mello. Implantado em 1996 e com 307 mil metros quadrados, ele é uma das maiores áreas de vegetação remanescentes de floresta tropical de Belo Horizonte. O bosque foi criado por meio do processo de divisão da Fazenda São José, propriedade de Alípio Ferreira de Mello e Ursulina de Andrade Mello, que determinou a criação de um parque no local.

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» Curiosidade: Por que o nome Castelo, segundo Lúcio Souza Assunção, antigo diretor da Cinova
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“O bairro foi urbanizado no período do regime militar no Brasil. Como os donos da Fazenda da Serra, que tinha muita influência na cidade – com atividades voltadas para a pecuária extensiva de gado leiteiro, a extração de madeira e a agricultura de subsistência – eram favoráveis à ditadura, colocaram o nome de Castelo Branco, ex-presidente militar. Porém, como não sabíamos se ia ser ou não positivo colocar esse nome, nós, da Cinova, preferimos deixar apenas Castelo. À época, consegui ainda com a Prefeitura de Belo Horizonte colocar as ruas do bairro com nomes de castelos. A maioria deles é portuguesa, já que o Brasil não conta com esse tipo de construção.”
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FONTE: Estado de Minas.


Comemorado hoje, o halloween tem origem em tradições europeias do século 2, ligadas à celebração das colheitas, e veio se transformando ao longo do tempo

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Para onde vão os mortos? Os espíritos podem voltar e perambular pela Terra? Há seres sobrenaturais dos quais devemos nos proteger? Não é de hoje que o homem lida com essas perguntas. Quando o assunto é o desenvolvimento de civilizações, não há como separar o nascimento das sociedades complexas das histórias de deuses, espíritos e entidades que ainda enfeitiçam a imaginação popular. 

Povos antigos, como os celtas, que começaram a habitar o oeste da Europa alguns séculos antes de Cristo, acreditavam que a Terra escondia mundos perdidos, e passagens para universos ocultos podiam se abrir. Viu alguma relação com as crenças dessas antigas tribos e a festa do Dia das Bruxas, que há alguns anos passou a ser comemorada também no Brasil? Não é por acaso. Para especialistas, a origem do Halloween, como a data de 31 de outubro é conhecida, tem origem nos costumes desse povo do passado.Nelson Bondioli, historiador especializado em estudos celtas e romanos, diz que a primeira referência histórica desses ritos data do século 2. “Está em um calendário depositado na Gália, região que hoje se refere, basicamente, à França. Ele foi encontrado em 1867, na cidade de Coligny, próxima a Lyon. Por isso, é conhecido como Calendário de Coligny”, conta o especialista.

Nos fragmentos da tábua de bronze, estão descritos cinco períodos de 12 meses. Ali, vê-se que o primeiro mês do ano celta era o Samon, ou Samonios, uma palavra que os estudiosos acreditam estar ligada ao verão. “Na segunda metade desse mês, há a inscrição Trinux Samon, algo como três noites de Samon, que provavelmente marcava um festival de três dias. Não sabemos a qual mês seria equivalente no nosso calendário, mas acreditamos que deva ser entre julho e novembro”, diz Bondioli.

Irlanda Por volta do século 8, na Irlanda, a história do Halloween ganha outro capítulo, escrito por monges católicos que passaram a reunir histórias da cultura oral europeia. Entre elas, estava uma festividade comemorada no início de novembro, a Samhain. Há uma relação entre Samon e Samhain? “Talvez”, diz Bondioli. “Mas temos que entender que não é uma relação direta. Há uma distância espacial e temporal. Além disso, o Samhain começa a ser escrito por volta do século 8, mas os manuscritos que nós temos acesso são do século 12. Então, veja que complicação”, observa o historiador.

Nos manuscritos, pesquisadores encontraram conjuntos de textos, chamados ciclos, que retratam histórias relacionadas entre si. A citação ao 1º de Samhain é recorrente, mostrando que a data era vista como um momento propício para acontecimentos sobrenaturais. Naquele dia, o deus Dagda encontrava e mantinha relações sexuais com a deusa Morrigan, ligada à morte e à guerra. Era também quando os sídhes (montanhas e colinas com reinos paralelos e criaturas mágicas) se tornam mais acessíveis.

“Havia uma ligação forte com energias espirituais, mas não de reverência aos mortos. O Samhain também mantinha uma ligação com a luz e a escuridão, mas a ideia principal era de limiaridade, o entre momentos, o que não é aqui nem ali. A noite anterior ao Samhain, que seria o 31 de outubro, não era o ano velho nem o ano novo. Não está ligado à luz, mas também não há escuridão”, explica Bondioli, completando que os celtas acreditavam que, nesse momento, as barreiras com o mundo espiritual se enfraqueciam. “Portanto, era possível transitar entre os mundos, o nosso e o sídhe.”

RITUAIS Segundo o artigo Halloween: an evolving american consumption ritual, do pesquisador Russell Belk, professor de marketing da Schulich School of Business, no Canadá, a celebração do Samhain consistia em uma sequência de rituais, inclusive sacrifícios humanos, conduzidos por druidas, sacerdotes da Idade do Ferro na Bretanha e na França. No estudo, publicado na revista especializada Advances in Consumer Research, Belk conta que para os antigos europeus, naquela noite, os espíritos dos mortos voltavam às casas em que haviam vivido. Além deles, bruxas e duendes mal-intencionados vagavam pela Terra.

Ele cita que alguns dos pontos marcantes do Halloween moderno, como a tradição de se fantasiar, aparecem nesse momento: aldeões vestiam peles de bichos abatidos para invocar espíritos de animais sagrados. Por ser uma festividade relacionada à colheita, havia forte influência da comida. Banquetes eram preparados para os fantasmas dos ancestrais, que, após a festa, eram conduzidos para fora do vilarejo pelos moradores fantasiados. É possível, também, que mendigos passassem nas casas pedindo restos da produção.

Em 1950, vestígios encontrados pelo antropólogo Ralph Linton indicaram que um dos costumes para a festividade incluía uma procissão de mascarados que percorria as cidadelas pedindo contribuições para uma entidade druídica chamada Muck Olla. 

CATOLICISMO Para chegar aos dias de hoje, essas tradições contariam um pouco mais tarde com a ajuda da Igreja Católica. A Santa Sé, que se tornara dominante em todo o continente, percebeu que era mais eficaz adaptar e assumir feriados pagãos do que se opor a eles. Assim, no ano de 835, o papa Gregório IV designou o 1º de novembro, data de comemoração do Samhain, como o All Hallows, ou Dia de Todos os Santos. Como a festa de origem celta, a data católica reverenciava os mortos, mas apenas aqueles considerados santos e mártires.

A Igreja também se apropriou da tradição de se fantasiar ao encorajar os fiéis a se vestirem como seus santos preferidos. Apesar do esforço, a tentativa de anular o Samhain não foi bem-sucedido, o que resultou na criação, em 1006, pelo papa João XIX, do Dia de Finados, comemorado em 2 de novembro. A data começava a ser comemorada na noite de 31 de outubro, chamada de Hallows Eve (Noite dos Santos), que se tornaria depois Halloween.

A festa demoraria alguns séculos para cair no gosto norte-americano. Isso ocorreu em 1840, com a chegada dos imigrantes irlandeses aos Estados Unidos. Com o tempo, algumas tradições desapareceram completamente e outras, como a tradição de crianças modificarem abóboras, permaneceram até hoje. 

Uma das questões mais interessantes é como uma festividade tão antiga conseguiu se manter forte e tradicional ao longo de milênios. “Ela se mantém assim porque a sociedade, a tradição e a comemoração estão sendo constantemente reformuladas. O Halloween, na forma comercial que vemos hoje, é fruto do capitalismo do século 20. Qual criança ou adulto associaria suas balas e pirulitos com uma celebração de passagem de ano?”, indaga Bondioli. “Talvez, essa seja a verdadeira força do Halloween: sua capacidade de ser reinventado e ser adaptado tão bem à sociedade que o comemora”, acredita o historiador. Como será a festa daqui dois séculos? Essa é uma pergunta ainda sem resposta. “Considerada a perspectiva histórica, ele tem tudo para ser muito diferente do que vemos atualmente.”

 

Claro e escuro

Gravado em bronze, o Calendário de Coligny é a única peça que retrata o calendário celta antigo. Ele era lunissolar, isto é, com os meses contados de acordo com as fases da Lua, que possui um ciclo de 28 dias. Entretanto, também se adequava, à sua maneira, com o movimento do Sol. “A importância dessa característica é que, considerando as fases da Lua, os meses eram separados em duas metades: uma metade clara (lua crescente a cheia) e outra escura (lua minguante e nova). Da mesma forma, o ano era dividido em uma parte clara (meses de verão) e uma escura ( meses de inverno)”, detalha o historiador Nelson Bondioli.

 

Palavra de especialista

Lídice Meyer, 
antropóloga da Universidade Presbiteriana Mackenzie

Importação cultural

 

Essa é uma festividade que veio importada para o Brasil e que não tem relação com nossa cultura. É uma espécie de intromissão cultural. Existem alguns movimentos tradicionais brasileiros que tentam substituir a festividade que, hoje, tem uma face mais mercadológica que folclórica. Os movimentos brasileiros não tentam substituir, ma sim abrasileirar a festa. Só que isso não tem fundamento. E existe uma resistência grande dos evangélicos à essa comemoração. Nos Estados Unidos, isso não é evidente porque a celebração é tão folclórica que a relação com o maligno se apaga. As crianças brincam com diversões proporcionadas até mesmo pelas igrejas.

FONTE: Estado de Minas.


‘O pessoal canta errado a letra’, diz neta da autora do ‘Parabéns a Você’

Eliana defende detalhes da letra original da música criada pela avó.
Concurso que escolheu versão brasileira em 1942 reuniu cinco mil letras.

Neta autora Parabéns a Você Jacareí Homem de Mello (Foto: Márcio Rodrigues/G1)Eliana exibe disco com a gravação do ‘Parabéns a Você’. Música é uma das mais tocadas no país em dois segmentos, de acordo com o Ecad.

Não peça para a comerciante Eliana Homem de Mello Prado, de 54 anos, puxar o coro do “Parabéns a você” em algum aniversário. Moradora de Jacareí (SP), a neta de Bertha Homem de Mello – autora da versão brasileira da canção – não canta a música, criada há 70 anos, em respeito à avó falecida em 16 de agosto 1999 “porque todo mundo canta a letra errado”.

Parabéns a Você
Nesta data querida
Muita felicidade
Muitos anos de vida”
Léa Magalhães (Bertha Homem de Mello)

Segundo ela, dois dos versos da canção original são alterados nas festas de aniversário pelo país. Em vez de “Parabéns pra você” deveria ser cantado “Parabéns a você”; e o verso “Muita Felicidade” é constantemente alterado para o plural “Muitas felicidades”.

“Minha avó ficava louca da vida quando ouvia o cantar da letra errado, porque ela sempre foi muito vaidosa. Então, eu não me permito cantar do jeito errado. No trecho da música ‘é pique’ eu começo a cantar, mas antes eu não canto”, brinca.

Arrecadação de direito autoral
A música continua sendo uma das mais executadas em todo o país, segundo o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), órgão responsável pelo recolhimento de direitos autorais. Por ser uma canção que tem autoria, o “Parabéns a Você” recolhe dinheiro dos direitos autorais sempre que é executada publicamente ou usada em filmes, novelas e programas de rádio e TV, assim como quando é gravada.

Segundo dados do Ecad, o “Parabéns a Você” está há quatro anos consecutivos entre as duas primeiras músicas mais executadas nos segmentos Música Ao Vivo e Salão de Festas. O órgão, porém, não divulga o número de execuções e nem os valores arrecadados anualmente. O repasse à família, que preferiu manter o valor em sigilo, é feito mensalmente.

Atualmente, a família recebe 16,66% de tudo que é arrecadado pelo Ecad pelas execuções da canção no Brasil. Os 83,4% restantes são divididos igualmente entre a editora Warner Chappell – detentora da música original – e os herdeiros das autoras americanas.

Autora Parabéns a Você ao lado da filha Jacareí (Foto: Arquivo Pessoal)
Bertha (de marrom) ao lado da filha. ‘Ela era o xodó
da minha avó’, conta neta.

Em razão do sucesso da letra, Lorice Homem de Mello, a filha de Bertha Homem de Mello, mãe de Eliana, que tem deficiência auditiva e visual, conta com a ajuda de três cuidadores. “Minha mãe era o xodó da minha avó e graças a Deus esse legado que ela deixou, também no aspecto financeiro, tem sido revertido totalmente para cuidar da minha mãe”, assegurou. A mãe de Eliana vive até hoje na casa onde a autora morou por mais de quatro décadas em Jacareí.

Para Eliana, a composição é um legado que Bertha deixou para a família. “É algo importantíssimo. É impossível ir a algum aniversário e não lembrar da minha avó. É marcante. É o orgulho de toda família e especialmente da minha mãe. Quando meus filhos contam que a bisavó foi quem escreveu a letra, a maioria das pessoas não acredita”, afirma.

Coautor?
Em uma reportagem da TV Globo de 23 de março de 1997 é possível ver realmente que Bertha Homem de Mello gostava que a letra fosse cantada de forma correta.

Mas durante mais de três décadas a autora da versão nacional ficou sem receber metade dos direitos autorais. Isso porque em 1978 o produtor musical Jorge Gambier firmou um contrato com Bertha Celeste por acrescentar mais quatro frases na canção.

A quadra criada por Gambier, que continuava o tradicional “Parabéns”, seguia a mesma melodia e tinha os seguintes versos: “A você muito amor / E saúde também / Muita sorte e amigos / Parabéns, parabéns”. Segundo a família, Jorge disse à época que produziu um disco infantil na década de 1970 e queria gravar a canção, mas como a letra era curta ele pediu autorização à editora para completá-la e foi informado que deveria firmar um acordo com a então autora da música.

A situação só foi resolvida no final de 2009, quando um advogado contratado pela família de Bertha conseguiu que a editora Warner retirasse Gambier como coautor. Na época houve um “ajuste de crédito” dado à família pelo tempo que os direitos ficaram divididos. Desde então, a herdeira de Bertha recebe a parte que lhe cabe, que é de (os 16,66%).

Como ‘nasceu’ o Parabéns
A música mais cantada em todo o mundo foi criada nos Estados Unidos em 1875 pelas irmãs Mildred e Patrícia Hill, professoras primárias da cidade de Louisville, no estado de Kentucky. Elas compuseram uma pequena quadra chamada “Morning to al” (Bom dia para todos) para cantar com os alunos pela manhã, antes do início das aulas.

Disco Feliz Aniversário, que lançou o Parabéns a Você no Brasil. Autora é de Pindamonhangaba (Foto: Márcio Rodrigues/G1)
Disco ‘Feliz Aniversário’, que lançou a música no
Brasil.

Após cinco décadas, em 1924, uma editora de música norte-americana lançou o livro de  partituras  “Celebration Songs” e “pegou emprestada” a melodia das irmãs para criar uma música que seria cantada em festas de aniversários. Assim, nasceu o “Happy Birthday To You” (Feliz Aniversário para Você).

A letra original era composta de um verso apenas, em que havia a repetição por quatro vezes do “happy birthday to you”, sendo acrescentando o nome do aniversariante na terceira repetição no lugar do “to you”. A popularização mundial da música ocorreu em 1933, quando uma peça teatral da Broadway utilizou a canção.

Concurso no Brasil
Em 1942, o cantor Almirante, pseudônimo de Henrique Fóreis Domingues, que apresentava um programa na Rádio Tupi do Rio de Janeiro, resolveu promover um concurso para escolher uma letra em português da canção.

A música da compositora, que era farmacêutica e poetisa em Pindamonhangaba, também no Vale do Paraíba, foi escolhida entre cerca de cinco mil letras  por uma comissão julgadora formada pelos membros da Academia Brasileira de Letras. Dentre os avaliadores estava Cassiano Ricardo, poeta de São José dos Campos.

“Ela contava que soube do concurso e estava pensando em escrever a letra, aí um dia o rapaz que trabalhava perto do sítio disse que iria para a cidade e se ela queria alguma coisa. Daí ela escreveu o ‘Parabéns’ em cinco minutos e deu para ele colocar no Correio”, relembra a neta. Bertha também tem poesias publicadas e já teve uma canção gravada pelo músico Rolando Boldrin. Ela morreu aos 97 anos e está sepultada em sua cidade natal.

FONTE: G1.


Prato tradicional da cozinha parisiense, a sopa de cebolas gratinada chega à atualidade com a mesma popularidade de tempos atrás

Sopa de cebola-2
O friozinho começa a dar o ar da sua graça e com ele a temporada mais gostosa da cozinha. Tempo de vidraças embaçadas pelo calor das panelas. Tempo de andar de meias pela casa, de ver TV com mantinhas nos pés e terminar o dia com uma sopa quentinha que conforta o estômago e acalma as tensões do dia a dia. Particularmente, tenho o maior respeito por esse prato que resiste aos modismos e chega à atualidade com a mesma popularidade de outrora.
A tradicional sopa francesa de cebolas é capaz de surpreender tanto pela simplicidade quanto pela delicadeza da textura e dos sabores. O lendário cozinheiro francês Augusto Escoffier disse que a boa comida é a base da verdadeira felicidade.
Que me perdoem aqueles que torcem o nariz e separam pedaçinho por pedaçinho no canto do prato, mas cebola é fundamental. Se como base e tempero ela é indispensável, como ingrediente principal desse ícone da gastronomia francesa o resultado é melhor ainda.
Detectar a origem exata de preparos tão tradicionais quanto o da soupe l’oignon não é tarefa fácil, uma vez que a receita é preparada por toda a França. Boa parte dos estudiosos acredita que ela nasceu na região de Lyon, no Sudeste do país.
Mas a versão incrementada e gratinada da sopa certamente é parisiense. Na Cidade Luz, ela está em tudo quanto é cardápio, de bistrôs populares a requintados restaurantes. Entretanto, o endereço ideal para se provar a receita é certamente o Au Pied de Cochon, em Les Halles. Aberto 24 horas, mesmo aos domingos e feriados, o local é procurado, particularmente, durante toda a madrugada, no inverno frio parisisense, devido ao seu caldo gratinado fumegante capaz de curar desde ressaca até mau humor. A cebolas servidas ali ficam com um gosto meio adocicado e bem macias, enquanto o pão e o queijo vão se derretendo e se homogeneizando num casamento perfeito. Não há ressaca que resista.
É muito comum ouvir dizer que a popular sopa francesa teria sido inventada por um rei Luís, não se sabe se o 14 ou o 16, que na calada da noite percebeu que só tinha cebola, manteiga e queijo na cozinha. Fato totalmente improvável, pois os reis não se interessam em saber o que têm na despensa e nem sequer preparam sua própria comida.
A história pode ser simpática, mas não dá para imaginar um pomposo rei francês, com sua peruquinha branca encaracolada, picando cebolas num ataque de fome durante a madrugada.
O certo é que a cebola, que é nativa da Ásia Central, sempre foi um ingrediente barato e disponível para populações mais pobres. Para elas podemos direcionar, então, o crédito e o mérito da origem da tradicional receita.
Em tempos de reflexões e críticas apimentadas sobre os novos rumos da gastronomia mundial, tiro meu panelão do gancho, acendo o fogo e vou fazer o que mais gosto: cozinhar. Rendo-me a qualquer cozinha que me dê uma receita boa. Sou assim mesmo, deixo as causas e as bandeiras para aqueles que gostam do discurso. Eu gosto mesmo é das panelas.
Gosto de ver, pacientemente, a cebola dourar e caramelizar na manteiga, observar as reações dos ingredientes e ao final celebrar o paladar com o resultado. A receita que reproduzi nesta página é de autoria do americano Antony Bourdain, e está no cardápio de seu restaurante Les Halles em Nova York.
Surpreenda-se!
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FONTE: Estado de Minas (Degusta).


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