Antequam noveris, a laudando et vituperando abstine. Tutum silentium praemium.

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 (AFP PHOTO / OSSERVATORE ROMANO/HO)

O papa Francisco lavou os pés de uma dúzia de adolescentes presos em um centro de detenção juvenil de Roma durante um tradicional ritual católico da Quinta-Feira Santa.

A cerimônia de lava-pés foi realizada no centro de detenção de Casal del Marmo, na capital italiana, onde 46 adolescentes estão presos atualmente.

Com isso, Francisco repete como papa o gesto de quando atuava como arcebispo de Buenos Aires e, na cerimônia de lava-pés, lavava os pés de detentos argentinos.Muitos dos jovens ali detidos são ciganos e imigrantes do norte da África. De acordo com o Vaticano, os 12 selecionados para o ritual não precisavam necessariamente ser católicos.Pelo fato de os detentos serem menores de idade, o Vaticano e o Ministério da Justiça da Itália limitaram o acesso ao interior do presídio.Segundo a Rádio do Vaticano, o papa Francisco disse aos jovens detentos que Jesus Cristo lavou os pés de seus discípulos em um gesto de humildade.”Se o Senhor lava os pés de seus discípulos, vocês também devem lavar os pés uns dos outros”, disse o papa aos jovens. As informações são da Associated Press.
FONTE:  Estado de Minas.

Poucas vezes me decepcionei tanto e tão rápido. Sua Santidade estava dispensada de me causar este dissabor.

Que sou católico, cristão e que acredito que qualquer pessoa merece uma segunda chance é fato. Que a mensagem de Cristo de amor ao próximo, humildade e perdão, idem. Que penso e acredito que qualquer criminoso, em que nível seja, não merece ser tomado como exemplo, também.

Bandido, preso, detento, condenado, menor infrator, prisioneiro ou seja lá que nome queiram dar pode até ser merecedor, enquanto pessoa humana, de respeito, pode até ter garantidos seus direitos humanos. Pode, até, merecer da Igreja proteçao e conforto, na medida do concebível.

Mas merecer do chefe da minha Igreja tamanha distinção? Em nome da “humildade”? Isso é jogada de marketing da pior espécie, é se igualar a certas seitas que fazem da sua “pastoral” a sua própria razão de ser.

Sua Santidade queria passar lição de humildade? Locais muito mais merecedores poderiam ser alvos da sua visita e demonstração, como quartéis de bombeiros, unidades de resgate, hospitais, asilos, etc. Gostaria de ver o Papa Francisco beijando os pés dos médicos, enfermeiros e socorristas ao final de um plantão (em que estiveram, justamente, dando conforto e socorrendo as vítimas dos bandidos).

Ao cárcere e aos encarceirados, Santidade, envie suas mensagens e seus mensageiros, e recomende à Igreja que não se esqueça deles, tal qual a mensagem do Cristo, em que o Amor está acima de tudo. Mas esta mensagem não pode ser distorcida para estar acima de tudo, de todos,  de qualquer coisa e de quaisquer parâmetros.

As ruas estão cheias de humildade e humildes: garçons, motoristas, domésticas, porteiros, policiais, bombeiros, enfermeiros, coveiros, vendedores, camelôs, babás, ambulantes, garis e mais uma miríade de pessoas voltando para suas humildes casas após um dia ou uma noite de trabalho estafante; fora os desempregados, que nem trabalho têm. E há também uma multidão de indigentes que nem têm para onde voltar, o supra-sumo da humildade.

Dirão, “Os sãos não têm necessidade de médico, mas sim os enfermos” (Mateus, 9, 10-12). Realmente, uma leitura superficial deste texto pode levar a uma errônea interpretação, mas analisando o contexto em que foi dita vê-se que a mensagem do Mestre vai muito além do sentido literal.

Ademais, outro texto sagrado mostra a censura de Jesus quanto aos ladrões, por exemplo,  “Jesus entrou no templo e expulsou todos os que ali estavam comprando e vendendo. Derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas, e lhes disse “Está escrito: ‘a minha casa será chamada casa de oração’; mas vocês estão fazenda dela um ‘covil de ladrões'” (Mateus, 21, 12-17).

Rezar, orar e pedir pela conversão de ladrões e outros bandidos, procurar garantir-lhes os direitos humanos; visitá-los (e também aos enfermos e necessitados) faz parte dos ensinamentos de Cristo, afinal, Ele próprio esteve preso (Mateus, 25, 35-40).

Mas prestigiar bandidos? Data maxima venia, não concordo.

MARCELO SOUZA

Belo Horizonte/MG


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