Antequam noveris, a laudando et vituperando abstine. Tutum silentium praemium.

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Mandela e Lula, a conciliação e o confronto

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Ecoam no mundo as homenagens que enaltecem a memória daquele que é considerado uma das maiores personalidades da política do século 20, Nelson Mandela, o homem que conseguiu acabar pacificamente com a segregação racial legal e reconciliar seu país consigo mesmo. O êxito de Mandela na luta contra o apartheid e para lançar as bases da democracia na África do Sul deveu-se à sua capacidade de convencer, principalmente a imensa maioria negra, ao lado da qual lutava, de que o sangrento conflito racial que mantinha o país preso ao passado só poderia terminar no dia em que negros e brancos se reconhecessem mutuamente, para além de suas profundas diferenças, como cidadãos iguais perante a lei. E que, como tal, se respeitassem.

Se é fácil imaginar a carga de preconceito que os brancos precisaram superar para aceitar a conciliação com os negros, mais fácil ainda é entender até que ponto o absolutamente compreensível rancor de uma imensa maioria negra historicamente perseguida e oprimida se apresentava como um obstáculo aparentemente intransponível ao projeto de conciliação defendido por Mandela. Mas uma inabalável convicção e uma inquebrantável perseverança mantiveram o grande líder firme e determinado mesmo nos momentos, certamente muitos, em que se viu confrontado pelo ceticismo e pelo inconformismo, quando não pela desconfiança de seus companheiros. Mandela, genuíno homem público, sabia que existe uma enorme diferença entre convencer e agradar e que muitas vezes é preciso pagar o preço das verdades duras, dos argumentos ásperos, para colher mais adiante o bem comum. Mandela, definitivamente, não era um populista.

Já no Brasil…

Lula Maluf Haddad - Priscila e Maxwell Palheta_thumb[1]

Em contradição com tudo o que Nelson Mandela pregou e realizou, aquele que se considera o nosso maior e mais importante líder político, Luís Inácio Lula da Silva, incorpora o mais refinado figurino populista do cenário latino-americano. Refinado, explico, apenas por conta de que Lula consegue ser o grande ilusionista que é num país onde, por questões históricas peculiares, as instituições democráticas são mais sólidas do que as daqueles em que a falácia do “bolivarismo” sustenta a liderança de populistas simplesmente patéticos.

Mandela dedicou a vida à conciliação dos sul-africanos. Lula prega o confronto entre os brasileiros. Nosso eterno líder sindical se convenceu, desde sempre, de que na política só existem “nós ou eles” e esse mantra segue sendo a síntese de seu, digamos assim, pensamento político, muito especialmente em períodos eleitorais.

Durante os primeiros 20 anos de existência do PT Lula foi o ferrabrás que era contra “tudo isso que está aí”. Para se eleger em 2002 converteu-se provisoriamente em “Lulinha paz e amor”, o que incluía desdizer quase tudo o que sempre dissera nos palanques. Mas, eleito e estimulado por índices estratosféricos de apoio popular, gradativamente voltou a ser o velho Lula rancorosamente hostil com os “inimigos” e pragmaticamente impositivo tanto na ação governamental quanto na partidária.

Lula exige que sua palavra seja lei. E a lei de Lula manda, primeiro, privilegiar ações de governo populistas, como um bolsismo necessário, mas incompetente e de viés claramente demagógico, e, depois, lançar a culpa de tudo o que não funciona ou dá errado sobre os ombros de um inimigo difuso, jamais denominado, que tanto podem ser as “elites” quanto todo e qualquer vivente que ouse a ele se opor. Por inspiração do Grande Chefe e com o toque de glamour fornecido pelo marketing, o discurso e a ação do governo baseiam-se hoje num tripé: a promessa, a versão e o porrete. Promessa de inesgotáveis bondades de grande apelo popular, versão edulcorada – ou puramente mendaz – dos desacertos provocados por sua própria incompetência de gestão e porrete no lombo da tigrada inimiga.

Haverá quem afirme que qualquer governo faz o mesmo, no mundo inteiro. É uma generalização talvez um tanto depreciativa, mas, enfim, governos são os homens que os integram e todos sabemos que o homem está longe de ser a obra mais perfeita do Criador. Tudo, porém, tem um limite, como diria o conselheiro Acácio. E em política o limite de tolerância para os malfeitos dos políticos – imperdoável corrupção à parte – é o da traição aos princípios que sempre defenderam. Nelson Mandela foi um exemplo de coerência. Lula traiu suas origens ao fazer, por apego ao poder, o Brasil ressuscitar com toda a força o secular patrimonialismo estatal que transformou o estamento burocrático em verdadeiro dono do poder, conforme Raymundo Faoro diagnosticara muito antes do advento do lulopetismo.

O próprio Lula revelou-se, ele mesmo, lá do pináculo de sua onipotência, um patrimonialista tão irredimível quanto os tradicionais coronéis da política aos quais se aliou, ao demonstrar que não distingue o público do privado: ao apagar das luzes de seu governo, teve o caradurismo de mandar distribuir passaportes diplomáticos para seus petizes e dias depois, já ex-presidente, refestelou-se com a família em aprazível propriedade da Marinha no Guarujá, para um merecido descanso à custa do erário. Exemplos aparentemente sem maior importância, mas suficientes para desnudar o rei.

Neste ano eleitoral, o tripé petista está armado de modo a garantir para a turma de Lula e seus aliados de mão grande mais quatro anos de patrimonialismo explícito, defendido na base da porretada, até mesmo contra o Judiciário. Dilma Rousseff aparentemente já conseguiu conciliar essa estratégia com seu próprio passado, simplesmente olhando para o outro lado, enquanto Lula decide o que deve ser dito nos palanques e quais devem ser os alvos da artilharia pesada. O recente e feroz ataque ao ex-aliado Eduardo Campos é uma pequena amostra do que vem por aí.

Tudo a demonstrar que entre Lula e Nelson Mandela c’è di mezzo il mare

*A. P. Quartim de Moraes é jornalista.

FONTE: Estadão.


Homem tenta pagar prostituta com cartão do Bolsa Família na Bahia

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SALVADOR – Um homem tentou pagar uma prostituta com um cartão do principal programa social do governo federal, o Bolsa Família, segundo a central de polícia da cidade de Itapetinga, a cerca de 560 km de Salvador.

O homem foi identificado apenas com o prenome de João, porque o caso não chegou a ser registrado quando ocorreu, na madrugada de 27 de junho.

De acordo com o policial Tiago Bottino, que trabalhou na noite do incidente, João criou confusão ao levar a prostituta ao motel Mirage, às margens da rodovia BA-263, sem dinheiro para pagar os R$ 50 do programa e o valor do quarto do estabelecimento.

Bottino não explicou qual “tática” seria usada por João com o cartão do Bolsa Família, que funciona apenas para saque em agências da Caixa Econômica Federal.

À reportagem o recepcionista do motel, que não quis revelar seu nome, disse que a garota pediu ajuda porque estava sofrendo um “golpe”. “Depois que chamamos a polícia, o cara apresentou um som do seu carro para colocar como empenho à dívida. Ele tentou usar até o Cartão Cidadão [ligado a questões previdenciárias do INSS]”, disse.

O recepcionista ainda afirmou que a situação pode ter ocorrido porque o motel não aceita cartão de crédito. “O pessoal sempre entra sem olhar a placa [da proibição] e depois precisa tentar resolver com a gente como é que fica [o pagamento].”

O caso só passou a ser investigado agora pelo delegado do município, Roberto Júnior.
“Estamos apurando a conduta dos policiais militares chamados ao local, que não fizeram o registro da ocorrência e resolveram por lá, mesmo, além de saber o que efetivamente aconteceu”, diz Júnior.

O Ministério do Desenvolvimento Social, responsável pelo Bolsa Família, informou que não pode se manifestar sobre algo que não foi oficialmente registrado.

Embora a titularidade do cartão quase sempre seja da mulher das famílias atendidas pelo programa, há casos como de viúvos em que o homem passa a ser dono do benefício.

Pesquisas divulgadas pelo ministério dizem que o dinheiro dos saques é usado preferencialmente para compra de material escolar e alimentação.

FONTE: Hoje Em Dia.


Flavio Flores da Cunha Bierrenbach

Plebiscito é o melhor caminho para a reforma política? NÃO

populismo

A pauta que parou

O Brasil tem uma Constituição, instrumento jurídico cuja finalidade é limitar o poder político. A Constituição é o estatuto do governo e as hipóteses de soberania popular nela previstas não podem ser usadas como pronto-socorro.

Caso o Brasil sobreviva mais 200 anos a seus políticos, algum dia, no futuro, quando se examinar o arquivo morto correspondente à atual fase de nossa história, será encontrado o atestado de óbito de instituições que perecem por doença de lenta evolução. Metástases avançadas tomam conta dos organismos, alastrando-se impiedosamente nos Estados e municípios, empresas públicas e autarquias, entes da administração pública e na vida privada.

A certidão será lavrada com a estampilha maldita da corrupção –a miúda e a graúda–, usada de modo constante, corriqueiro, quase casual, como instrumento de poder.

Para lembrar apenas o conhecido episódio de Ruy, estarrecido diante da vitória das nulidades, ou o célebre sermão do padre Vieira, na conjugação do verbo rapio, tudo o que já se disse no Brasil, em todas as épocas, acerca da roubalheira despudorada, da gatunagem institucionalizada, dos sobrepreços criminosos, da malfeitoria organizada, da impune confusão entre a “res publica” e a “cosa nostra” não passa de pálida imagem de aquarela ante as tintas sombrias dos delitos que se sucedem como pragas bíblicas.

Até poucos dias atrás, parecia que não indignavam mais ninguém. O escândalo de cada semana tornava perempto o da anterior e assim imaginávamos que seria na seguinte. Esse crime continuado tinha de parar. Há de parar. A afronta a elementares princípios éticos não pode se tornar banal. Ontem, era imperativo lutar por liberdade. Hoje, pela decência.

Era preciso um gesto inicial de esperança, que chegasse para dar impulso a uma tarefa pedagógica de compostura e limpeza. Não veio dos políticos. Nem da universidade. Veio de onde menos se esperava, do povo, consciente de que já não lhe bastam pão e circo. O povo, por enquanto, pode não saber bem o que quer, mas bem sabe o que não quer.

Faz pouco mais de uma semana, poderia ter sido consultado o Conselho da República, medida prevista nos artigos 89 e 90 da Constituição Federal. Porém, a presidente optou por outra saída. Agora é tarde.

As fórmulas mágicas, as alquimias políticas, meros placebos institucionais, nada resolvem, só agravam e prolongam a doença. Refiro-me à constituinte exclusiva e aos plebiscitos com alguma autoridade e nenhum ressentimento. Em 1985, na transição do regime militar para a democracia, foram minhas ambas as propostas. No Congresso Nacional, fiquei vencido. Entretanto, tive o apoio da sociedade civil e da Ordem dos Advogados do Brasil.

Agora, a ideia velhaca da constituinte foi abortada em 24 horas. O povo sabe que o Congresso é poder constituído e não constituinte. Outrora, o povo saiu às ruas por falta de uma Constituição. Hoje, não.

Os pronunciamentos populares, sejam plebiscitos ou referendos, já foram matrizes de algumas ditaduras e ajudaram a sepultar outras. Estão sempre na ambiguidade da transição, ponto de partida ou ocaso de um regime de exceção. A história ensina que a confusão entre democracia e democratismo geralmente termina mal. Os governos desapetrechados costumam perder a estabilidade quando atiram no próprio pé.

Espera-se dos intelectuais clareza nas ideias. Dos políticos, na ação. Aos sociólogos, cabe dar explicações, interpretar os fatos. Aos políticos, cabe apontar caminhos. Senão, o povo escolherá o seu trajeto. Não vai combinar com a polícia e vai passar por cima da hipocrisia dos que ostentam o monopólio da virtude.

FLAVIO FLORES DA CUNHA BIERRENBACH, 73, é ministro aposentado do Superior Tribunal Militar. Foi procurador do Estado de São Paulo, vereador, deputado estadual e deputado federal (PMDB)

FONTE: Folha de São Paulo.


Guilherme Fiuza*educacao1

Há uma grita injustificada no caso das provas semi-analfabetas do Enem. Não dá para entender tanta indignação. Há anos o governo popular vem preparando o Brasil para a grande revolução educacional, pela qual a norma culta se norteará pelo português falado nas assembléias do PT. Como se sabe, depois de uma blitz progressista de Dilma e Fernando Haddad, livros didáticos passaram a ensinar que é certo escrever “nós pega o peixe”, entre outras formulações revolucionárias. Alguns especialistas teriam argumentado que o certo seria “nós rouba o peixe”, mas isso já é discussão interna deles.

Numa das redações que levaram nota máxima no Enem, o candidato escreveu “enchergar” – com “ch” em vez de “x”. Não há reparo a fazer, está perfeito o critério. Depois de três anos deixando o Enem à mercê dos picaretas, pois estava muito ocupado com sua agenda eleitoreira, o ex-ministro Haddad elegeu-se prefeito de São Paulo. Um fenômeno desses jamais aconteceria num país que enxerga – só num país que encherga. Está corretíssima, portanto, a observação por parte do estudante da nova norma culta.

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Os que vêem algum erro nisso não estão sabendo acompanhar as velozes mudanças da língua, comandadas pela nova elite. O relato de Dilma Rousseff sobre seu encontro com o Papa Francisco, por exemplo, também mereceria nota máxima no Enem. Contou a presidente: “Ele estava me dizeno que ele espera uma presença grande dos jovens (na Jornada da Juventude) na medida em que ele é o primeiro papa, ele é várias coisas primeiro”. Os corretores progressistas do Enem só dariam nota 1.000 a uma construção dessas porque não existe 1.001.

O novo recorde de aprovação que acaba de ser batido pelo governo e pela “presidenta” só comporta duas explicações possíveis: ou o Brasil está “enchergando” bem, ou o Brasil está “enchergano” bem. Qualquer das duas hipóteses, porém, garante imunidade total à “presidenta” (que também é várias coisas primeira). Ela pode passear de helicóptero sobre as enchentes de Petrópolis e depois pousar, como uma enviada do Vaticano, para rezar pelas vítimas. Os desabrigados de dois anos atrás na mesma região continuam sem as casas prometidas pelo governo popular. Há famílias morando em estábulos. Alguns quilômetros serra abaixo, casas oferecidas pelo governo popular para removidos de áreas de risco foram inundadas pelas últimas chuvas. Moradias do programa Minha Casa, Minha Vida oferecem como bônus minhas goteiras, minhas rachaduras na parede.

O povo deve estar “enchergano” tudo isso, porque acolhe o helicóptero de Dilma como um disco voador em missão turística e vai rezar com ela na igreja local, pedindo proteção a não se sabe quem.

A aprovação popular ao estilo governamental de Dilma é comovente. Quem distribui as verbas federais contra enchentes é o ministro da Integração, Fernando Bezerra Coelho – aquele que mandava cerca de 80% do dinheiro para Pernambuco, por acaso seu domicílio eleitoral. As enxurradas podem levar casas e povoados inteiros, mas nada arranca Bezerra do cargo. E a cada nova intempérie é ele quem surge para rechear os comícios chorosos de Dilma com cifras voadoras, que servem basicamente para drenar as manchetes. Ainda de Roma, a chefa suprema da nação declarara que tomará “medidas drásticas” para remover os teimosos que insistem em morar em áreas de risco. O Brasil merece isso tudo.

A população culta também está “enchergano” bem. Todos chocadíssimos, batendo panela contra o pastor acusado de homofobia – nomeado para presidir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Quem manda na Câmara? Quem fica caçando votos dos evangélicos, distribuindo vantagens aos seus líderes, como o famigerado Ministério da Pesca? “Nós pega o peixe e entrega ao pastor”, reza a norma culta do governo popular. Quanto maior o rebanho, melhor a boquinha. Comissão de Direitos Humanos é troco.

Evidentemente, uma redação do Enem que enxergasse com x que o Brasil e suas instituições estão sendo emprenhados de ignorância pela indústria do populismo levaria nota zero. A revolução petista não tolera esses arroubos elitistas. Prefere receita de miojo.

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FONTE: Época.

*Guilherme Fiuza é jornalista e autor de vários livros, entre eles “Meu Nome não é Johnny”, adaptado para o cinema. Neste blog, trata de grandes temas da atualidade, com informação e muita opinião principalmente sobre política.



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