Antequam noveris, a laudando et vituperando abstine. Tutum silentium praemium.

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O passar dos anos para um profissional resulta em experiência e constatações. Durante trinta anos, sempre que chegava o 1º de maio e eu abria o gravador para as lideranças sindicais o discurso era inevitavelmente o de lamento. Algo mais ou menos assim: “Não temos o que comemorar; nosso salário é dos menores do mundo, o desemprego assola os lares brasileiros e os mais pobres pagam o preço mais alto”. Os tempos mudaram, o mínimo ficou três vezes acima do sonho (100 dólares), a taxa de desemprego em Belo Horizonte é quatro vezes inferior à de um país que era nosso sonho de consumo – a Espanha – e a gente não está comemorando. Por quê?

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Muito provavelmente estamos boquiabertos porque os encarregados dos discursos não têm o que dizer e nós outros não estamos preparados para cobrar com a devida veemência. Os sindicatos estão no melhor dos mundos porque há um bom faturamento compulsório, isto é, o trabalhador paga por obrigação, e, no caso dos líderes que se mexem, a assistência à saúde é um bom exemplo de como oferecer alternativas concretas e cativar mais associados. Desinteressados, por não entenderem a importância de sua representação, os membros de uma categoria não se esforçam para assumir suas responsabilidades e colocar pessoas sérias à frente das entidades.

Paralelamente, o velho refrão de que falta de emprego e oportunidade resultaria sempre em violência já não vale. Gente estudiosa como Luís Flávio Sapori assegura que uma coisa não tem nada a ver com a outra. E nem era preciso, afinal, toda hora vemos patrões em desespero com vagas não preenchidas e jovens saudáveis insistindo em assaltar, violentar, barbarizar… E não é só. Sequer no dia dedicado ao trabalhador aqueles que o representam se entendem. É só dar uma olhada pela cidade hoje.

Os “cristãos” na Praça da Estação, a Força Sindical na Via 240, os da construção pesada no Mineirão… Era para ser um dia feliz, de encontro, reflexões, comemorações, Ah se as centrais e seus sindicatos falassem sério pelo menos na hora de enfrentar o governo e exigir avanços, além de pugnar por justiça e igualdade, como, por exemplo, acabar com o famigerado fator previdenciário!

FONTE: Eduardo Costa, via Itatiaia.


SELMA SUELI SILVA*

Um tribunal do júri começou a julgar, nesta semana, em São Paulo, um caso que teve imensa repercussão imensa no Brasil todo. O réu é Gil Rugai, acusado de ter assassinado o pai e a madrasta. O crime, negado por ele, aconteceu em 2004.

Foram nove anos para que o rapaz se sentasse no banco dos réus. Segundo as investigações, duas pessoas entraram pelo corredor lateral e mataram primeiro a mulher, na cozinha. Em seguida, arrombaram a porta da sala de TV, onde o homem estava e atiraram. As suspeitas sobre Gil Rugai vieram seis dias depois. As provas começaram a aparecer: um furo feito por um tiro na tampa de um baú do quarto do rapaz. Segundo a policia, lá também estavam a nota fiscal da compra de um coldre para pistola, um certificado de curso de tiro e um cartucho de bala.

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Na animação feita pela polícia, a marca de um chute na porta foi comparada com a sola de uma bota de Gil Rugai. Segundo a perícia, eram iguais. O rapaz também foi submetido a um exame de ressonância magnética. O laudo mostrou que ele tinha lesões no pé, compatíveis com as de alguém que tivesse chutado uma porta.

Além da detalhada investigação científica, a Polícia apontou também a provável motivação do crime: vingança. Um mês antes, Gil Rugai teria desviado 25 mil reais da produtora de vídeo do pai, que funcionava em uma mansão. Ele foi demitido e colocado para fora de casa. O pai contou isso, dias antes de morrer, para uma das testemunhas do julgamento e já havia dito que estranhava o comportamento do filho e que o considerava “um cara perigoso.” Gil Rugai ficou preso por dois anos, mas sempre negou ter participado do crime.

Após uma semana de júri, ontem, Gil Rugai foi condenado a 33 anos e 9 meses pelas mortes do pai e da madrasta. A pena deve ser cumprida, inicialmente, em regime fechado por serem considerados crimes hediondos, porém, ele poderá recorrer em liberdade. Contradições dessa terra chamada Brasil.

Fato é que agora considerado culpado, Gil Rugai vem de boa família, com excelente condição financeira – a herança é avaliada em 22 milhões de reais, tem curso superior – é publicitário, foi seminarista, teve acesso a bens e ambientes distantes da maioria dos brasileiros da sua idade. Mas apesar das benesses de uma condição social e econômica privilegiadas, Gil Rugai escolheu o caminho das mentiras, das falcatruas, a ponto de roubar o pai e ser expulso de casa, antes da frieza desse crime.

Outro caso que impressionou esta semana foi relatado por uma companheira nossa, aqui da mesa de debate. Ela, grávida de 8 meses, foi com os dois filhos de 8 e 5 anos ao Mac Donalds da Nova Floresta. Garotos entre 12 e 14 anos, que estavam na mesa ao lado, ainda com o uniforme de um bom colégio, começaram a arrotar. É claro que as crianças, pouco acostumadas com atitudes assim, olharam para os adolescentes estranhando a falta de educação. Pois foi o que bastou para a nossa colega e os filhos receberem todo o tipo de agressão verbal desses adolescentes. Chamaram, as crianças de esquisitas (quando na verdade, os esquisitos e mal educados eram eles), ameaçaram gravar e postar um filme dos meninos no Youtube. Realmente, devem ter estranhado ver uma família bem educada, tranqüila, uma família normal, gente como a gente, ali, ao lado deles.
Como não houve reação, um deles disse que era a favor do aborto para evitar mais uma criança esquisita no mundo. Aí, somente aí, o gerente do estabelecimento pediu para eles se retirarem. E eles, talvez incentivados pela facilidade de agredir sem a consequente punição, ficaram gritando para nossa colega também sair.

Já na quarta-feira, o Jornal da Itatiaia trouxe uma entrevista do repórter Renato Rios Neto com um menor, de 14 anos, que foi apreendido no Morro das Pedras com drogas e armas. Não qualquer arma, uma pistola israelense que ele comprou por 3 mil reais. Dinheiro facilmente conseguido com a venda de todo o tipo de droga, segundo o próprio delinquente aprendiz. Ao ser alertado por nosso repórter de que um dia a casa cai, ele explicou que “não dá nada não, a gente sai de novo.” Com o braço cheio de tatuagens de folhas de maconha, o menor avisou que a próxima que fará no braço, será a de um “capeta desgraçado de doido”. Para concluir, o “de menor” ainda disparou: “Nem minha mãe conseguiu me tirar dessa vida. E à escola eu só vou se for pra matar todo mundo.”

No mundo do esporte, nos estádios de futebol, que deveriam ser sinônimo de saudável diversão, mal nos recuperamos das imagens de um jovem sendo trucidado por pseudo torcedores do time rival, aqui em BH, e olha as torcidas organizadas de novo nas manchetes policiais.
Torcedores do Corinthians dispararam um sinalizador na direção da torcida do time adversário. O projétil atingiu o olho de um garoto de 14 anos e explodiu seu crânio, matando-o instantaneamente. Acidente? Fatalidade?

É essa geração que queremos deixar para o mundo? Onde foi parar a sabedoria popular que dizia: “Se não aprende em casa, a vida ensina.” Será que ensina mesmo, com leis que não são cumpridas, sistema prisional falho e uma sociedade acuada e apática que não reage quando vê uma grávida sendo agredida psicologicamente com requintes de crueldade? É, diz um outro ditado: “Mais cego é aquele que não quer ver”.

Selma

* Jornalista e Relações Públicas, Selma Sueli Silva é especialista em Comunicação e Gestão Empresarial pelo IEC – Instituto de Educação Continuada da PUC-Minas. No jornalismo impresso colaborou na Revista “Na Poltrona”, além de ter vários artigos publicados em outros veículos, como o Jornal “Hoje em Dia”. Foi responsável pela Assessoria de Comunicação da Previdência Social em Minas Gerais, de 1993 a 2002, onde desenvolveu, entre outros projetos, trabalhos sobre gestão de pessoas e empresas, comunicação pessoal e institucional, treinamento de mídia. Essas atividades serviram de base ao desenvolvimento de palestras que continua ministrando a grupos diversos. Em 1999, estreou na Rádio Itatiaia integrando a mesa de debates do Programa Rádio Vivo. Em julho de 2001 assumiu a produção do programa.

FONTE: Rádio Itatiaia.



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