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Empresários abrem seus custos para se defender de reclamações no site $urreal

Site há um mês denuncia cobranças abusivas em BH; donos de negócios tentam justificar valores

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Jane, dona de padaria: custos de produção e perdas justificam preço de R$43,95 do quilo de biscoito de polvilho

Criada há menos de um mês no Facebook, a comunidade BH $urreal, que denuncia cobrança de preços abusivos no comércio e serviços, reúne mais de 42 mil seguidores. Num ritmo acelerado crescem também os relatos contra padarias, bares, restaurantes, supermercados, estacionamento e outros estabelecimentos. Embora a reclamação seja legítima, do outro lado da moeda estão empresários que se queixam dos altos custos para a manutenção de seus negócios – como o peso da carga tributária – e da necessidade de repassá-los aos clientes. A instabilidade da economia, num momento em que a inflação assombra o bolso do brasileiro, também tem impacto sobre insumos, principalmente na cadeia de alimentos.
Mas para o fundador da página BH $urreal, Flávio Peixe, as queixas do empresariado são semelhantes às dos consumidores. “Carga tributária e impostos estão na vida de todos os consumidores não é uma justificativa válida. Além do mais, temos inflação de cerca 6% ao ano e produtos com aumento de até 100%”, diz o idealizador da comunidade.

BH $URREAL!Entre as publicações de grande repercussão da última semana, o relato de um consumidor que se queixava do preço do biscoito de polvilho com queijo, vendido na Padaria Pedro Padeiro, no Bairro Santa Tereza, por R$ 43,95 o quilo. A sócia-proprietária do estabelecimento, Jane Magalhães Zarife, explica que a precificação passa, principalmente, pelos custos de produção e perdas, já que os ingredientes são basicamente polvilho, queijo e água. “Uma massa de 7 quilos rende 2,8 quilos de biscoito assado, ou seja, temos uma perda de 50% do peso inicial. Além disso, temos altos custos com energia e gás, já que assamos poucas quantidades por vez”, diz.O preparo artesanal, que depende de mão de obra cara, é outro argumento. A inflação em insumos básicos é outra queixa frequente entre os empresários do ramo da alimentação. A farinha de trigo, que no início do ano passado custava R$ 68 o saco de 50 quilos, hoje é comprada por R$ 115. Já o saco de 25 quilos de polvilho chega a custar R$ 150. “A mão de obra subiu muito e absorver esses custos junto com a carga tributária é difícil. O impacto é grande para as pequenas empresas porque temos obrigações de empresas gigantescas”, afirma Jane.

A costelinha suína ao molho barbecue vendida pelo Dirceu Botequim, no Sion, pelo preço de R$ 84,90, também entrou na mira dos consumidores da página BH $urreal. O gerente do bar, Vando Santos, justifica o preço da porção pela qualidade do corte da carne. “Uma costelinha normal custa de R$ 15 a R$ 17 o quilo, mas a nossa custa R$ 24 porque é selecionada, tem bastante carne”, diz. “Pagamos R$ 16 mil de aluguel, R$ 15 mil de imposto por mês e a folha de pagamento é de R$ 40 mil todos os meses. No fim do mês, temos lucro líquido de 10%, no máximo”, completa.

REGULARIZAÇÃO
 O proprietário de um dos estacionamentos criticados na página, que preferiu manter anonimato, garante que mudanças impostas pela prefeitura para a regularização dos estacionamentos elevaram os preços da hora cobrada. Por três horas, foram cobrados R$ 42, segundo post na BH $urreal. O preço do aluguel, segundo ele, é outro agravante, já que ele equivale a 0,5% do valor do imóvel. “Se o lote custa R$ 4,5 milhões, o aluguel chega a R$ 22 mil.”

Impostos não justificam altas

O professor do MBA em gestão comercial da FGV/IBS Roberto Neme Assef explica que aumentos de preços, principalmente em itens mais vendidos no verão, como bebidas e sorvetes, não podem ser explicados pela carga tributária, já que ela se mantém no mesmo patamar nos últimos dois anos. “Temporada verão facilita reajustes significativos em alguns setores”, diz. “No contexto, a carga de tributos pesa, mas sazonalmente não”, reforça.

No entanto, Assef lembra alguns impactos, principalmente em setores fragilizados por falta de mão de obra qualificada. “Existe carência de profissionais em algumas áreas e isso se torna elemento importante de custo”, diz. O especialista afirma ainda que, embora o aumento da renda, crédito e nível de emprego favoreçam o consumo, a percepção de valor pelo consumidor é um alerta para as companhias, que podem sofrer penalidades como a perda desses clientes.

Outro relato na página BH $urreal que chamou a atenção e acabou ganhando pela primeira vez a atenção de uma das empresas criticadas foi o do consumidor Fausto Campos. Na quinta-feira, ele postou a foto de uma fatia de melancia de 522 gramas vendida a R$ 5,21 no Super Nosso. Depois da repercussão, no mesmo dia, o supermercado publicou na página um comunicado que explicava o preço. “Temos dois códigos de pesagem para a melancia. Um é para melancia quilo, que custa R$1,98. Outro código é para melancia processada, em que é totalmente limpa, picada em cubos e acondicionada em uma embalagem especial”, explicou na rede.

IMPORTÂNCIA DO CLIENTE
 O erro, segundo o supermercado, teria sido de um funcionário que pesou a melancia quilo como processada. “Se qualquer cliente comprou com o preço errado pedimos a gentileza de levar a nota fiscal até o Super Nosso da Pampulha, que iremos ressarci-lo”, completava o comunicado. Para Campos, que fez a reclamação, o passo da empresa foi positivo, embora não tenha sido totalmente satisfatória. “O posicionamento da empresa mostra que a organização começa a enxergar a força e importância que o cliente pode exercer”, disse. Mesmo considerando as altas cargas tributárias, impostos e inflação, ele argumenta que o consumidor não deve simplesmente aceitar “o lucro exacerbado”. “É preciso que questionemos para fazermos a mudança que esperamos”, afirma.

Até então, segundo o fundador da página, Flávio Peixe, nenhuma empresa havia feito contato, mas a ideia é que “haja diálogo sempre”. “A internet é o novo boca a boca. Aquela coisa do vizinho que te dava referências sobre lugares para comprar ou não comprar agora está na internet”, diz. O movimento, segundo Peixe, deve ter efeito cascata. “É uma forma de pressionar as empresas, que, por consequência, pressionam grandes fornecedores e esses o governo, em busca de encargos menores e preços mais justos”, afirmou.

FONTE: Estado de Minas.

CONSUMIDOR » Quem cobra caro vira chacota no Facebook

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Quase três décadas depois do surgimento do movimento das donas de casa, em que mães de família fiscalizavam semanalmente a evolução de preços nos supermercados, o Brasil assiste a novo formato de protesto em que grupos pressionam contra a cobrança de valores abusivos no comércio e nos serviços. E, claro, sugerem boicote aos estabelecimentos onde identificam abuso. O novo ambiente de protesto é o Facebook, maior rede social do planeta, onde os grupos criaram uma nova moeda, a $urreal – estampado com o rosto do pintor Salvador Dalí, mestre do surrealismo –, para denunciar os preços abusivos. O movimento começou no Rio de Janeiro, ganhou réplicas em outras capitais e chegou a BH no domingo.

Até as 21h de ontem, a comunidade BH $urreal contava com 9.238 seguidores – média diária de 1.952 adesões. A maior parte das postagens no grupo reclama de preços em bares, restaurantes e similares, um dos principais setores da economia da cidade. Numa casa de shows da Grande BH, por exemplo, um membro do grupo informa que a embalagem de 500 ml de água mineral é vendida a R$ 5. Em vários pontos comerciais da cidade, a mesma mercadoria sai por R$ 1,50. Outro seguidor lamenta que a pipoca na Praça do Papa seja vendida por R$ 15. Outro membro do grupo denuncia que um bar da Savassi cobra mais pelo chope servido sem colarinho.

“A ideia da página é que o comerciante pratique um valor justo pela mercadoria. Há estabelecimentos que pedem R$ 21,90 na porção de 300 gramas de batata fria. O quilo do produto congelado, porém, sai por cerca de R$ 3. Sei que o dono tem custos, como óleo, gás e funcionários, mas pedir 700% a mais? É surreal”, indignou-se o comunicador Flávio Peixe Silva Rosa, um dos organizadores da página. Ele teve a ideia de criar a BH $urreal depois de perceber que a primeira página do gênero, feita há poucos dias por três amigos no Rio de Janeiro e com mais de 110 mil adeptos, havia conquistado bons resultados.

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Além do Rio e de BH, páginas com a expressão “$urreal – não pague” foram montadas em São Paulo, Brasília, Curitiba e Recife. No caso da capital mineira, a maioria das críticas é direcionada a bares e restaurantes, setor em que muitas mercadorias subiram bem acima da inflação oficial do país em 2013 (5,91%). Aqui, a inflação da cerveja disparou 13,53%. A da refeição fora de casa, 7,34%. A do lanche, 9,77%. Na prática, porém, alguns empreendimentos subiram os preços bem acima desses percentuais. Quem conta é o professor Renan Loreto: “Uma cerveja num bar da Rua Francisco Sales custava R$ 6 no meio do ano passado. Agora, R$ 8 (diferença de 33,3%)”. Insatisfeito, ele passou a prosear e a beber com amigos em outro bar, na mesma rua, onde uma garrafa idêntica é negociada a R$ 5. “O bar é tradição do belo-horizontino. Nosso lazer está cada vez mais difícil. Como pode haver preços tão diferentes na mesma rua?”, questiona o rapaz.

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DEFESA
 O diretor-executivo da seção mineira da Associação de Bares e Restaurantes (Abrasel-MG), Lucas Pêgo, informou que o setor não repassou para a clientela todos os aumentos a que se submeteu. Prova disso, justifica, é que os bares e restaurantes, em média, tiveram um faturamento 7% maior em 2013 na comparação com 2012. “Levando-se em conta que a inflação ficou em torno de 6%, é como se tivéssemos obtido um crescimento perto de zero, foi como se houvesse um empate. A margem de lucro nos restaurantes tem diminuído, justamente porque não repassamos todos os aumentos para os clientes”, sustentou.

Lucas acrescenta que é difícil analisar mercadorias semelhantes com preços bem diferentes em estabelecimentos que não sejam da mesma rede. “No caso da batata frita, por exemplo, não é só a porção que você está comprando. Você está ‘comprando’ o ambiente: as pessoas do lugar, o atendimento etc. Já no caso da cerveja, as fabricantes vendem a mercadoria por preços diferentes (para estabelecimentos vizinhos), pois levam em conta fatores como o interesse pelo ponto e o poder de barganha (do comerciante).”

Repercussão faz preço cair 33% no RJ

A primeira comunidade $urreal – não pague foi criada no Rio de Janeiro, na sexta-feira, por três amigos. A comunidade, que já conta com mais de 110 mil adeptos, rendeu resultado: um ambulante na Praia de Copacacbana que vendia cada coco por R$ 6 reduziu o valor para R$ 4, depois de fotos de suas mercadorias serem postadas no fórum virtual.

“Eu e dois amigos – Flávio Soares e Andréa Cals – reclamávamos dos preços no Rio e um quarto colega propôs, numa nota de jornal, que o real fosse substituído pela ‘moeda’ surreal. Daí tivemos a ideia de fazer a página. Em 24 horas, tínhamos 20 mil curtidas. Já são mais de 110 mil”, disse a crítica de arte Daniela Name, uma das fundadoras do grupo.

Uma das primeiras postagens no Rio $urreal foi a foto de um cardápio de um quiosque da Praia de Ipanema que vende o misto quente por R$ 20. O dono do empreendimento ainda não se sensibilizou com os vários comentários. “Se a gente se recusar a pagar o preço cobrado, as vendas caem e o dono baixa o preço. O brasileiro precisa ser um consumidor consciente, precisa compreender que só há comerciantes que cobram valor abusivo porque tem quem pague”, completa.

A quantidade de seguidores e o interesse de outras capitais em fundar comunidades semelhantes levaram Daniela a avaliar que o brasileiro tem uma demanda reprimida em relação a protestos relacionados aos preços exorbitantes praticados em várias partes do país. “A onda é deixar de comprar. É bom saber que outras capitais estão fazendo o mesmo”.

COMENTÁRIOS Em Belo Horizonte, ontem, vários internautas se manifestaram sobre a criação da comunidade no site do Estado de Minas. O internauta Marcelo Loschi, por exemplo, elogiou a iniciativa: “Ótima. Parte da culpa é dos consumidores, que gostam de pagar caro”. Ele acrescenta que conhece muita gente que “gosta do que é caro; não necessariamente do que é bom!!!!”.

Gilson Júnior acredita que a internet poderá ajudar a reduzir os preços cobrados no país: “Finalmente as pessoas estão utilizando a força das redes sociais para algo útil, que poderá favorecer a todos! As empresas que abram os olhos e baixem seus preços abusivos”.

Renato Rego, por sua vez, alerta para a possibilidade de aumentos exorbitantes em função da Copa do Mundo: “Já era esperado. Com a chegada da Copa, todos os serviços vão ser inflacionados! Até parece que a cidade vai ficar superlotada de estrangeiros. Quem é prejudicado somos nós mesmos. Resta saber se, ao final da fanfarra absurda e abusiva da Copa, os preços vão voltar ao normal”.

FONTE: Estado de Minas.



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