Cidadão perdido na noite

Viver perto de casas noturnas e bares É UM DRAMA NA CAPITAL. E pedir socorro à PBH pode não adiantar, verificou o EM, que acionou 10 vezes a fiscalização de trânsito sem sucesso

Noites Sem Lei

Quando não se pode contar com a fiscalização ostensiva de trânsito da BHTrans, da Guarda Municipal e da Polícia Militar, o que resta a moradores que têm suas garagens bloqueadas por carros e a passageiros cujo espaço nos pontos de ônibus foi roubado por veículos é ligar para o disque denúncia 156 da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH). Contudo, no vale-tudo da noite belo-horizontina, nem mesmo telefonar para as autoridades municipais e solicitar a desobstrução de locais com veículos estacionados de forma irregular é garantia de que isso vá ocorrer. Para comprovar esse drama, sobretudo para pessoas que moram próximas a casas noturnas, bares e restaurantes, a reportagem do Estado de Minas circulou nas noites de quarta e quinta-feira nas redondezas de alguns desses estabelecimentos e acionou a fiscalização da PBH por telefone 10 vezes para pedir providências. Apesar da promessa dos atendentes de que viaturas da BHTrans iriam aos locais para rebocar quem estava desobedecendo as regras de trânsito, em nenhum caso os agentes apareceram para tomar uma atitude. Isso, mesmo depois de a reportagem insistir e ligar cobrando uma resposta.

Infrações

Imperam abusos de grande ousadia pelas vias dos quarteirões que cercam o trecho de 230 metros da Rua Pium-Í, no Bairro Cruzeiro, entre as ruas Rio Verde e Montes Claros. O local é onde mais infrações de trânsito foram flagradas pela reportagem. O volume de carros que chega para abastecer os 15 bares que funcionam nesse segmento é tão grande que dois estacionamentos foram abertos para dar conta da demanda por vagas. Na quarta-feira, noite de futebol, todas as casas noturnas estavam abertas e movimentadas. Na esquina com a Rua Rio Verde, um flanelinha sentado numa cadeira de plástico abordava quem ia estacionar na rua, ofertando o serviço de vigilância do veículo mesmo para quem parava em locais proibidos.

No lado direito da rua, 15 veículos estavam parados em estacionamentos proibidos, invadindo um ponto de ônibus e bloqueando a garagem de uma casa. Às 20h06, a reportagem fez o primeiro contato por telefone pelo número 156 requisitando providências da PBH em todo o trecho da Rua Pium-Í. “Nossa fiscalização vai enviar a equipe mais próxima para averiguar a situação”, disse em resposta quase automática a atendente que registrou a reclamação após passar um número de protocolo. A reportagem esperou que alguém aparecesse por uma hora e meia, mas nem sinal das autoridades de trânsito. Enquanto isso, as vagas nas ruas foram ficando tão cheias que os carros que chegavam começaram a estacionar sobre as faixas de pedestres de todos os cruzamentos, sem qualquer constrangimento. Uma viatura da Polícia Militar era a única presença da lei a passar por lá com frequência, mas sem tomar qualquer atitude sobre esse problema.

Às 21h40, a reportagem ligou novamente para reclamar sobre o não comparecimento dos fiscais na Rua Pium-Í. A resposta foi inesperada. “Nossa equipe informou ter comparecido ao local e não constatado nenhuma irregularidade. Quer gerar uma nova solicitação?”, perguntou um atendente. Mais uma vez, ninguém apareceu para desobstruir os lugares irregularmente ocupados pelos veículos, que por lá permaneceram madrugada adentro pelo tempo que seus proprietários quiseram. “Para a gente que pega ônibus, esse tanto de carro parado no ponto é muito ruim. Se a gente fica no passeio, não consegue ver o ônibus vindo e o motorista não enxerga a gente. Se não formos para a rua, acabamos perdendo o ônibus ou temos de sair correndo para pedir para abrir a porta quando o motorista para no trânsito da frente dos bares”, reclama a secretária Maria Silveira Pinho, de 43 anos, que diariamente embarca no ônibus da linha 9106 para ir de sua casa, no Bairro Sagrada Família (Região Leste), para o escritório onde trabalha, no Cruzeiro.

Nos bairros São Pedro e Santo Antônio, na Região Centro-Sul, os bares e uma boate que ficam na Rua São Romão, entre as ruas Lavras e Santo Antônio do Monte também atraem muitas pessoas que acabam estacionando em locais proibidos. Mais uma vez, a reportagem usou o telefone para acionar a fiscalização de trânsito, às 20h30 de quinta-feira. Dessa vez, uma minivan da BHTrans apareceu descendo a rua em questão e parou no semáforo da esquina com a Rua Viçosa, de onde era possível enxergar vários carros parados em local proibido, ocupando o espaço que era para ser usado pelos carros, caminhões e ônibus para manobrar. Só que em vez de descer para conferir ou acionar os caminhões de reboque, os agentes viraram na Rua Viçosa sem nem sequer passar pelo local indicado na reclamação. Questionada sobre o fato, a atendente da PBH mais uma vez disse que a equipe esteve no local, mas que não constatou qualquer irregularidade.

Apesar de ter todos os protocolos abertos pela reportagem indicando infrações e requisitando a fiscalização, até o fechamento desta edição a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) não soube responder por que seus agentes nem sequer compareceram aos locais, apesar de cada abertura de protocolo ter sido seguida de cobrança e de uma resposta dos atendentes, ainda que insatisfatória.

OLHOS FECHADOS

Ao longo de 100 metros de faixas onde é proibido estacionar e inclusive numa curva estreita, cada centímetro da Avenida Prudente de Morais foi ocupado por um dos 23 carros que conseguiram se amontoar ali. Os proprietários dos veículos se divertiam num bar próximo, na esquina com a Avenida do Contorno, e deixaram seus carros em posição que tornava a via mais estreita ao tráfego e atrapalhava as garagens de dois edifícios na noite de quinta-feira. Mesmo depois de uma viatura da Guarda Municipal estacionar perto do local, nenhum dos clientes do bar saiu para retirar o veículo em evidente transgressão de trânsito. Os guardas que lá apareceram também não importunaram os donos dos carros nem acionaram qualquer órgão competente para realizar o reboque e aplicar multas.

Segundo informou a assessoria de imprensa da Guarda Municipal, “somente os agentes do grupamento de trânsito estão credenciados para realizar fiscalização e autuação. Tais podem ser diferenciados e reconhecidos pelo uso da cobertura (quepe) branca”.

Ruído a 30 metros de estabelecimento no Bairro Buritis chega a 87 decibéis, quase o dobro do permitido Ruído a 30 metros de estabelecimento no Bairro Buritis chega a 87 decibéis, quase o dobro do permitido

Um serviço que funciona

O barulho provocado por igrejas, comércios e casas noturnas também pode ser denunciado pelo telefone 156. A reportagem do Estado de Minas testou também a eficiência do serviço e ao contrário da fiscalização de trânsito, os agentes do disque sossego responderam prontamente, marcando imediatamente uma visita à residência de quem se queixou dos ruídos de música alta e dos frequentadores de bares e boates. O serviço é regionalizado, ou seja cada uma das nove secretarias de administração regionais tem uma equipe com medidores de pressão sonora que vão até as casas avaliar a intensidade do incômodo.

No Bairro Buritis, na Região Oeste, um dos estabelecimentos no entorno do Uni-BH reuniu um grande número de jovens para uma apresentação musical no seu interior, na noite e madrugada da  quinta-feira. A música e os gritos dos frequentadores chegaram a registrar 87 decibéis (dB) a uma distância de 30 metros do estabelecimento, superando em 93% o limite estabelecido pela legislação municipal que é de 45 dB para o período a partir da meia-noite. O ruído, que àquela distância é quase tão intenso quanto o de um secador de cabelos, escapa para os edifícios vizinhos pela cobertura do bar, que é vazada, levando os vizinhos a protestar.

No Bairro São Pedro, na Região Centro-Sul, os ruídos da música de uma boate na Rua São Romão eram contidos pelo tratamento acústico do estabelecimento, mas a gritaria dos frequentadores ao deixar ou chegar à casa noturna causam grande incômodo aos vizinhos, sobretudo na madrugada. A reportagem foi também ao Bairro União, na Região Nordeste, na Avenida Alberto Cintra, onde a edição da semana passada denunciou abusos com som alto em várias casas noturnas. Na quinta-feira, ainda que o ruído externo chegasse aos 70 decibéis na madrugada, não foram constatados exageros nas músicas de sons mecânicos e apresentações ao vivo.

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FONTE: Estado de Minas.

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